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Por Maitê Borges de Oliveira da Rede Mulheres Empreendedoras – RME

Apesar das mulheres representarem cerca de 57,1% dos estudantes entre 18 e 24 anos que frequentam o ensino superior, a presença delas é rara em áreas como ciência, tecnologia e exatas*. No entanto, no Brasil, 40% dos meninos e 50% das meninas de 15 anos esperam ter uma carreira no campo da ciência ou da engenharia**. Os dados mostram que a discrepância entre o número de homens e mulheres na tecnologia não é uma questão de preferência.

 

Uma explicação para esse cenário são os papéis sociais de gênero impostos pela sociedade a meninos e meninas, desde a infância. Quando dizemos sociedade, não responsabilizamos apenas a família, mas escolas, espaços de convivência, mídias, livros e outros meios que possam reforçar estereótipos.

 

Enquanto meninas brincam com bonecas, panelas, fogão, simuladores de vida doméstica e atividades relacionadas ao “cuidar”, meninos tem brincam de fazer, conquistar. Como, no futuro, a criança pode se interessar por algo que não foi incentivada?

 

O contexto gera insegurança. Dados colhidos na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) mostram que, até certa idade, o desempenho em matemática das meninas participantes é igual ou até mesmo superior aos meninos. A virada no desempenho nas áreas de exatas acontece por volta da puberdade, quando há perda de interesse por essas disciplinas, o que poderia ser diferente se houvesse igual incentivo entre os gêneros.

 

O número de mulheres na tecnologia tem diminuído. Estima-se que nos anos 80, elas representavam 40% do mercado de trabalho, hoje são apenas 20%. A situação se torna alarmante se atrelada a outro fator: segundo o Code.org, empregos na área de computação irão dobrar até 2020, chegando a 1,4 milhão. Se as mulheres continuarem deixando a área, a carência já urgente de trabalhadores qualificados em tecnologia irá piorar.

 

Um dos motivos apontados para o abandono da área é o machismo no meio de trabalho. Por serem minoria nas salas de aula e ambientes de trabalho, é comum que mulheres se sintam deslocadas, como se não pertencessem a tal lugar. São comuns relatos de mulheres com imensa dificuldade em serem reconhecidas por seus trabalhos ou de precisarem trabalhar o dobro que os colegas para serem notadas. Caso contrário, são tratadas com descrédito, excluídas de conversas. É comum atrelar o sucesso, ou promoção de cargo de uma mulher como resultado de envolvimento sexual com chefes, por exemplo.

 

Em entrevista à revista Exame, Tracy Chou, engenheira no Pinterest, disse que já foi demitida de uma startup porque seu chefe achou que um novo contratado do sexo masculino era mais qualificado. Quando Chou pediu por uma explicação, ele disse: “É apenas um sentimento que eu tenho de que esta pessoa será capaz de fazer outras coisas mais rápido do que você”.

 

“O padrão contínuo de todas essas pessoas me tratando como se eu não soubesse o que estava acontecendo, ou me excluindo de conversas e não confiando em minhas afirmações, todas essas coisas somadas e pareceu que havia uma corrente de sexismo”, disse ela.

 

Quem ousa contrariar a regra?

 

Diante da exposição de tantas barreiras enfrentadas, deixamos aqui alguns exemplos de mulheres desafiaram o lugar que a sociedade esperava delas:

 

CAMILA ACHUTTI

 

mulheres na tecnologia

 

Com apenas 25 anos, Camila é empreendedora de duas startups na área de tecnologia e inovação: a Mastertech, uma escola de programação, UX, Design Thinking e Empreendedorismo; e a Ponte 21, uma consultoria em inovação. Além disso, é a criadora do blog Mulheres na Computação, onde iniciou sua militância pela inclusão de mulheres na área de tecnologia, desmistificando ser uma área própria para homens. Ano passado, a Mastertech fechou uma parceria com a Estação Hack, um projeto do Facebook, que oferece vagas para cursos intensivos de programação, realizados em finais de semana, e bolsas para a academia profissional de programação.

 

GABRYELLA CORRÊA

 

mulheres na tecnologia

 

Ela nunca se intimidou com profissões comumente associadas aos homens. Depois de crescer ajudando o pai em sua oficina mecânica, montou uma empreiteira. Após erros e acertos, hoje Gabriela aposta de novo no empreendedorismo para ajudar outras mulheres a, assim como ela fez, trabalharem em setores em que elas ainda sofrem preconceito, com o Lady Driver – o primeiro aplicativo de transporte só para mulheres. Lançado para o público há um ano, na região de São Paulo, o app já conta com mais de 8 mil motoristas cadastradas. No dia Internacional da Mulher, Gabryella irá lançar o Lady Driver no Rio de Janeiro.

 

MAITÊ LOURENÇO

 

mulheres na tecnologia

 

É psicóloga e atua na área organizacional de empresas há mais de 10 anos. Quando criou seu primeiro negócio, a Cia de Currículos, passou a frequentar espaços de empreendedorismo, tecnologia e startups, e se deu conta que sempre era a única negra dos locais. Surgiu então a ideia de fundar a BlackRocks, uma startup de consultoria e aceleração voltada a empreendedores negros. A empresa realiza diversos eventos e mentorias na cidade de São Paulo. A atuação de Maitê lhe rendeu ano passado o Prêmio Veja-se, da Revista Veja, na categoria Diversidade.

 

SÔNIA GUIMARÃES

 

mulheres na tecnologia

 

É a primeira mulher negra brasileira a obter o título de doutora em Física, adquirido pela The University Of Manchester Institute Of Science And Technology, e uma das poucas mulheres a fazerem parte do quadro do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA. Estudante de escola pública durante toda a vida, Sonia trabalhava na adolescência e todo seu dinheiro era destinado a pagar o cursinho, já que fazia ensino médio técnico. Sonhava em ser engenheira civil, mas foi orientada por um professor a colocar como opções no vestibular os cursos que tivessem menor procura. Sua escolha foi para física e apaixonou-se pelo curso. Ela também é fundadora da ONG Afrobrás, e colaboradora da Universidade Zumbi dos Palmares.

 

LUCIANA CALETTI

 

mulheres na tecnologia

 

Luciana é sócia-fundadora da Love Mondays, uma plataforma que lista os salários e a satisfação dos funcionários no Brasil por cargo e por companhia. Os interessados se cadastram e podem compartilhar dados sobre seus locais de trabalho, que permanecem anônimos. Para Luciana, os trabalhadores não têm acesso às informações necessárias para fazer suas escolhas antes de ingressar em uma empresa e o objetivo do Love Mondays é facilitar esse processo. Em 2017, a startup foi a única do Brasil a ser selecionada pelo Google para participar do Demo Day, um evento com investidores. Das 450 empresas que se inscreveram, 11 foram selecionadas. Atualmente, o Love Mondays tem um milhão de visitas por mês e conta com 400 mil avaliações de 60 mil empresas.

 

CRISTINA JUNQUEIRA

 

mulheres na tecnologia

 

É a mente por trás do Nubank, uma startup brasileira que oferece um cartão de crédito sem anuidade gerido através de um aplicativo. Cristina trabalhou muitos anos em grandes bancos com produtos e marketing na área de créditos e percebia como os clientes ficavam insatisfeitos com situações de falta de transparência e cobranças. Ela pensou no Nubank como uma alternativa, onde o cliente pudesse ter a melhor experiência possível com um banco totalmente transparente. Recentemente, a empresa foi avaliada em mais de um bilhão de dólares, tornando-se o terceiro “unicórnio” brasileiro.

 

Se você quer saber mais exemplos de mulheres atuantes em diversas áreas, fique atento ao portal da RME. Durante o mês de março, postaremos listas e artigos sobre personagens que fizeram (e fazem!) história. 

 

* Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD

**De acordo com estudos da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE

 

Um papo sobre mulheres na tecnologia
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