Sou tão programador quanto você

O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, assim como o designer vai se tornar programador e o programador vai se tornar um designer.

Nielsen Norman diz que é melhor para uma empresa contratar um especialista do que um generalista. Ele que me perdoe, mas a verdade é que nós já somos assim, metaprogramadores.

Quando um designer abre um software para desenhar e criar formas que simularão a iteração de um sistema, o faz em cima de um programa, que nada mais é que uma série combinada de números binários. O mesmo princípio serve para a maioria dos programadores de hoje, que executam seus códigos em ambientes de desenvolvimento. Esses, por sua vez, são também pré-programados, através de teclas (programadas) que devolvem símbolos que produzem informações.

A questão está no enquadramento.

Se um programador se sente detentor de um grande poder exatamente por ser o responsável pelas linhas de código (escritas nas mesmas teclas usadas pelos “programados”) que executam e exibem o design; Queira ele ou não, suas decisões são tomadas dentro de um programa (a ironia) que podemos chamar de “metaprograma”, através das mesmas teclas e telas utilizadas pelos ditos “programados”. Isto automáticamente tornana-os, não programadores, mas sim “metaprogramadores”. 

A situação piora a cada novo framework, criando um ciclo interminável de “metametaprogramadores”.

Programadores, assim como designers, também são programados.

No fim das contas, somos todos arquitetos desse novo sistema, de coisas imateriais, do novo mundo digital.

Para entender esse novo mundo, um mundo de programadores e programados, deve-se ter consciência que a raiz do programador totalitário, ou seja, aquele que iniciou tudo do zero, se tornou um axioma, há muito tempo perdido no horizonte.

Por sua vez, o designer que é relutante em aceitar esse sistema, acaba por se perder em sua própria fantasia de cores e símbolos, que não fogem de uma bolha social, justamente por negar-se a compreender o funcionamento do organismo que ajuda a projetar.

A frustração do designer está justamente em perceber que não podemos impor ao mundo as formas que quisermos.

“O mundo só aceita aquelas formas que correspondem ao nosso programa de vida”.

Vilém Flusser

A boa notícia é que convergimos em um ponto, nós aceitamos o mesmo epiciclo, acreditamos que o mundo gira em torno do sol. Mas mesmo nesse ponto podemos talvez ser, em um futuro, completamente dispensáveis. Na verdade, essa nossa articulação numérica de algoritmos ja é capaz de criar programas que podem agir de forma infinitamente independente, criando novos fenômenos com formas tão reais tais quais as nossas.

Acredito que, em dado momento dos projetos, acabamos por inevitavelmente trocar de posições e assumir diferentes funções, com o reforço dos preceitos de uma cultura ágil, de sapiens para sapiens como de sapiens para coisas, pois estamos constantemente delegando a elas diferentes funções. Um cenário de troca entre humanos e coisas, como a roda e o tempo, intrinsecamente ligados.

Caminhamos para uma vida de não designers e não programadores, de programadores de programadores, de contingências infinitas.

E é melhor estarmos juntos.

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