Problemas complicados e suas tratativas

Em seu livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, Oliver Sacks dedica cada capítulo à um dos seus pacientes mais emblemáticos. Para dar um pouco de contexto, Oliver Sacks é um médico britânico que dedicou sua vida aos estudos neurologia e da neuropsicologia. Partindo de sua crença de que o cérebro é a coisa mais incrível que existe, estudou cada um dos seus pacientes de forma minuciosa.

O preâmbulo e introdução do livro se dedicam a contar um pouco sobre a história dos estudos da mente. Hipócrates, considerado o pai da medicina,  já falava sobre o arco narrativo (com início, meio e fim), porém do ponto de vista da doença, onde havia um início, um clímax e sua resolução (feliz ou fatal). Foi no século XIX onde o paciente passou a fazer parte deste arco narrativo, resultando em histórias clínicas amplamente humanas. 

Em 1861, na França, Pierre Paul Broca, ao estudar seus pacientes com afasia (perturbação na formulação de linguagem), concluiu que os hemisférios do nosso cérebro são responsáveis por diferentes funções. Com base nestas e em outras descobertas fundou o que hoje conhecemos como neuropsicologia (ou ciência dos processos mentais). Por fim fala das contribuições de Freud, que tinha uma visão biopsicossocial do ser humano e acreditava na cura pela fala (psicanálise), da concretização da neuropsicologia na Rússia durante a segunda guerra mundial, feito pelas mãos de Luria, Leontev, entre outros. 

Toda esta base suporta Oliver Sacks em suas investigações. Não é um passo a passo, um “how to”, ou um processo definido que resulte em um diagnóstico certeiro. O fato é que nós seres humanos somos indivíduos únicos, feitos de uma quantidade múltipla de camadas, seres complexos. Falando em complexo, um pequeno parênteses para falar de tipos de problemas!

Um problema simples tem uma solução bem definida, clara e o risco de consequências inesperadas é muito baixo. Quando falamos de problemas complicados, o cenário muda um pouco. Problemas complicados são difíceis de entender e suas soluções podem ter consequências não intencionais ou ainda causar outros problemas (por exemplo: mandar um foguete para a lua). Por fim existem os problemas complexos: nestes casos são processos que não podem ser repetidos e os resultados são altamente incertos (como, por exemplo, criar um filho). 

Fechando este parênteses, podemos interpretar os pacientes de Oliver Sacks como “problemas complicados”, pois são muito particulares, únicos, difíceis de entender. Além disso, suas soluções podem ter consequências não intencionais, ou ainda, causar outros problemas. Vale lembrar que Freud mudou a sua forma de trabalho, entre muitos outros fatores, motivado pela perda de um colega por overdose de antidepressivos (na época era comum o uso de cocaína para esta finalidade). Ou seja, uma solução pode levar a outro problema. 

Voltando então ao Oliver Sacks e seus pacientes, uma coisa em comum aos seus diagnósticos, é o processo exploratório. É através de conversas, observações, formulação de hipóteses e testes, que ele vai tecendo pouco a pouco o diagnóstico de seus pacientes. É no encontro do arco narrativo da patologia com a história e contexto do seu paciente que ele encontra possíveis explicações para as hipóteses que ele formula. 

Esta investigação conduzida por ele, muito embora sem necessariamente ter um passo a passo formulado, possui algumas características constantes: aproximação com o “problema”, formulação de hipóteses, construção de narrativa e a premissa básica de que observar os acontecimentos sob diferentes ângulos. No filme “A sociedade dos poetas mortos”, tem uma cena muito emblemática, onde o professor Keating instiga seus alunos a fazer exatamente isso ao pedir que eles observem a sala de aula subindo na mesa: permitir a observação das coisas de um ângulo diferente. 

Tudo isso é muito legal, mas quando falamos de problemas complicados, como investimentos, por exemplo, há quem goste de um guia mais estruturado. No final da segunda guerra mundial, em meio à uma economia destruída, banqueiros e empresários na Suíça se reuniram para discutir as melhores práticas de investimento. Buscando responder como ganhar dinheiro e enriquecer em meio à um cenário absolutamente desfavorável, criaram um compilado de axiomas para guiar até mesmo os investidores mais inexperientes. O livro Os Axiomas de Zurique oferece não exatamente resposta pronta, mas sim um apanhado de boas práticas a serem observadas na hora de fazer um investimento. É sobre gerenciar o risco, mais do que evitá-lo. Aqui, obviamente, estamos falando de algo inanimado: dinheiro e lucro.

Em última instância, os problemas complicados podem ser apresentar de diversas formas. Pode ser um paciente com algum diagnóstico difícil, uma instabilidade no mercado de investimentos ou até mesmo uma pandemia, como a que estamos vivendo atualmente. O que muda é como o problema é abordado. Não há resposta certa garantida. Oliver Sacks optava por uma forma mais exploratória, condizente com a natureza do seu ofício. Da mesma forma, os autores de Os Axiomas de Zurique se apoiaram em pragmatismo para estruturar o seu guia de boas práticas. Ao nos depararmos com um problema complicado, uma observação mínima já é um bom começo para entender qual abordagem de resolução pode fazer mais sentido. 

Este texto foi escrito por Maga Alonso e Nícollas Gabriel, os dois fazem parte do time da Mastertech e basearam esse post em suas leituras dos livros a seguir:

A Sociedade dos Poetas Remotos é uma iniciativa interna da Mastertech para manter o time conectado em tempos de quarentena. Cada pessoa da nossa equipe recebeu de surpresa um livro em casa, escolhido pelos líderes. Após a leitura de cada um, todos foram separados em grupos e escreveram um texto conjunto que conecta as obras.

Todos os livros da Sociedade dos Poetas Remotos são parte importante da visão da Mastertech e os conteúdos deles são citados com frequência em nossos cursos abertos. Se você gostou desta iniciativa, é bem provável que também goste de nossas aulas. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

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