Pratique contexto. Releia o verso. Interprete as entrelinhas

Nota do editor: pode ser que você já tenha lido o primeiro trecho desse texto, mas tudo bem, a graça está justamente na conexão entre as partes, na análise, na releitura. Todo texto pode ser novo quando colocado sob um outro ponto de vista, sob uma outra perspectiva. Posto isso, boa leitura, ou melhor, boa releitura.


A ciência move montanhas?

Não, não move.

Apenas os terremotos movem montanhas.

Mais ninguém.

E a ciência tá bem resolvida com isso.

Falemos mais de ciências e de montanhas adiante.

Por ora, vamos seguir.

Numa leitura estatística simples e pura, Tara Westover é uma criança fora da escola.

Estatísticas são frias, não contam histórias e também não se preocupam com nomes e sensibilidades.

Estatísticas ganham vida ou morrem aos olhos de quem lê.

A pandemia que o diga, com seus exemplos vivos e cotidianos.

E para ler melhor você precisa enxergar justamente o que não está escrito.

Tara vive no interior dos Estados Unidos, numa área rural remota, inacessível e próximo das montanhas.

Seu pai se radicalizou com o tempo e levou a família para viver longe do mal social, da deturpação dos modos e costumes, do controle exercido pelo governo e das tentações demoníacas do consumo.

{Até aqui, tudo bem, escolhas são escolhas. O problema é impor a sua para os outros, sem diálogo. Nesse momento as coisas começam a ficar mais complicadas…}

….

Ela e seus 6 irmãos foram privados da vida escolar e viviam como operários em um regime de subsistência, liderados pelo pai paranóico, com suas teorias sobre o fim dos tempos, sobre a danação da terra.

Pode-se dizer que era um fanático religioso, um negacionista da ciência, alguém que cuidava dos filhos com uma rígida regra moral, como se fosse um deus particular, determinando poucos poderes e muitos deveres.

Não há nada mais questionável do que confrontar a força das evidências, sobretudo no campo da ciência.

De um fanático vivendo nas montanhas, como o pai de Tara, pode-se até compreender tal comportamento, sem que isso signifique aceitação

No entanto, no contexto atual, em uma economia de dados, com acesso fácil e quase irrestrito a todo tipo de informação, optar pela cegueira é fanatismo e radicalismo.

É nutrir-se de ignorância.

Pode-se não gostar dos fatos, pode-se desejar ardentemente que sejam diferentes, só não se pode refutar e usar de pequenos poderes para impor uma privação coletiva às ações necessárias para momentos críticos.

Acontece hoje no Brasil, com seu líder máximo, e acontece todos os dias em empresas.

Arrogância não é ciência e não é habilidade de gestão.

Tara passou a infância e a adolescência sob as regras de um tirano, que ansiava por confirmar suas crenças, deturpando fatos e distorcendo histórias.

Para além da ignorância, isso tem um nome científico: chama-se viés da confirmação.

Essa manobra cognitiva, combinada com outro viés, o da disponibilidade, aquele que se agarra a parte da informação que é mais latente, embora seja estatisticamente pouco relevante, pode ser fatal na modelagem mental de processos decisórios.

Vieses são armadilhas, e para sair delas é preciso permitir-se ponderações. Estas, por sua vez, se fazem com fatos e com dados. E também com a inteligência dos que leem o que está na sombra e no verso dos números.

Tara Westover é a protagonista de um livro chamando “a menina da montanha”, onde descreve, sem pieguice e com delicado equilíbrio narrativo, sua vida desde criança até chegar a faculdade.

Tara é exceção.

Para todo efeito, pode ser enxergada pelos oportunistas como o exemplo dos resultados positivos da prática do “homeschooling” {a prática de educar as crianças em casa}, pois, longe dos efeitos da “lavagem cerebral” imposta por escolas e professores, foi capaz de entrar na faculdade, competindo de igual para igual com aqueles que tiveram acesso ao ensino formal.

Uma estatística pura e simples poderia dizer isso.

Mas, mesmo a pureza e a simplicidade devem ser questionadas.

Às vezes, como no caso de Tara, é apenas disfarce.

Ou, tecnicamente falando, uma falácia de narrativa.

No mais, não dá pra dizer, em oposição, que praticar “homeschooling” não dê certo ou não seja viável.

É preciso mais que isso.

É preciso estudo e empirismo, com método e com rigidez de pesquisa.

Vivemos na sociedade da informação e também habitamos um mundo de polarizações ideológicas.

Dados são usados em todos os contextos, para apoiar ou refutar teses, para calar ou para dar voz.

Isso é irreversível, sintoma dos tempos.

O que devemos praticar, no entanto, é o ceticismo saudável.

Devemos investigar fontes, analisar uma conclusão pelo seu oposto, ponderar criticamente e, acima de tudo, nunca fechar os olhos para a dimensão humana de histórias que estão sendo friamente registradas por números.

Em determinadas situações, basta um caso, um mísero caso, para que deixemos os dados de lado e sejamos sensíveis às humanidades.

Apenas desse jeito teremos imunização.

Foi o que Tara fez.

Contrariando tudo o que sabia e o que foi permitido que soubesse da vida, achou amparo na lucidez dos irmãos que, ao conseguirem furar o bloqueio do pai, trouxeram notícias de um mundo expandido e com outras possibilidades.

Tara fiou-se nisso, descobriu os livros e descobriu conhecimentos.

E foi assim que ganhou autonomia intelectual para confrontar o estado das coisas que lhe foram impostas.

Certo ou errado? Que importa?

Importa o direito de escolha.

Importa a liberdade plena de pensamento, onde os dados, as evidências e a ciência atuam como balizadores racionais e como neutralizadores de extremistas e radicais.

“A menina da montanha”, pode-se dizer, é sobre um tipo de isolamento.

E a leitura, por paradoxal que seja, faz com que respeitemos ainda mais o isolamento a que estamos submetidos nesse momento, mesmo que rejeitemos totalmente aquele vivido por Tara.

Contraditório? Nada disso.

É apenas um exemplo de que devemos saber ler os diferentes significados para uma mesma palavra ou para um conjunto de números.

Pratique contexto. Leia o verso. Interprete as entrelinhas.

Voltemos algumas décadas para falar de outra garota, a da banda. 

Por ser a única mulher do Sonic Youth, exaustivamente Kim Gordon respondeu como é ser a única garota da banda. 

E o que significaria ser a garota da banda?

Kim lutou durante toda a carreira para não ser o que queriam que ela fosse: uma presença de palco objetificada. Para as grandes gravadoras, a música era importante, mas muito se resumia ao visual da garota. Uma garota ancora o palco, suga o olhar masculino, e, dependendo de quem ela é, lança seu próprio olhar de volta para a plateia.

Em alguns momentos, Gordon quis ser vista como atraente.

Em outros, invisível. 

Muito porque Los Angeles era um ambiente assustador nas décadas de 60 e 70 para caminhar sozinha, o que explica a dualidade de Kim entre pertencer e desaparecer. 

Não fizemos muitos progressos de lá para cá.

A garota da banda não é uma reflexão da obra, e sim da vida, escrita de forma não cronológica. Como uma conversa de bar.

Sua vida é um tutorial de sobrevivência ao mundo do rock com uma filha nos braços.

É a habilidade de priorizar as brigas que valiam à pena brigar entre um show e outro.

É sobre equilibrar vida e trabalho quando vida e trabalho não se equilibram. 

É a história de mais uma jornada tripla: casamento, maternidade e rock and roll.

Falamos de uma mulher que teve seus sentimentos reprimidos na infância e encontrou na arte o seu porquê. Primeiro nas plásticas e depois na música. 

Gordon é de uma geração de garotas que não representam os padrões de comportamento idealizados às mulheres, e sendo uma vocalista de rock, sua mensagem não era só ouvida, mas repetida à capela.

É por isso que modelos são importantes para quem está na plateia.

Ser uma vocalista de rock nos anos 70 é como ser uma programadora hoje. Assim como as gravadoras, as empresas vão “sexualizar” você para dizer que têm diversidade. 

Saber programar é importante, mas, será que você sabe mesmo? Vão duvidar.

Vão perguntar como é ser a única também.  

E se for a única, seja.

Enquanto você estiver no palco entre eles, outras mulheres estarão ouvindo. 

Tara e Kim aprenderam que a busca por identidade é o primeiro passo para viver na prática.

O segundo passo é ocupar seus próprios espaços como autoras de suas histórias.

O terceiro passo é lutar contra os vieses da disponibilidade. Elas são sobreviventes de seus protagonismos simplesmente porque não deixaram que o ambiente decidisse por elas. 

Ninguém culparia Tara por aceitar uma vida nas montanhas à espera do fim do mundo.

Ninguém culparia Kim por desistir de ser a única.

Às vezes é confortável perder e aceitar a narrativa disponível, o que elas não fizeram.

Isso nos faz pensar que a ciência, de fato, não move montanhas. 

Mas se fosse preciso, elas moveriam.

Este texto foi escrito por Fabio Ribeiro e Natalia Valentin, os dois fazem parte do time da Mastertech e basearam esse post em suas leituras dos livros a seguir:

A Sociedade dos Poetas Remotos é uma iniciativa interna da Mastertech para manter o time conectado em tempos de quarentena. Cada pessoa da nossa equipe recebeu de surpresa um livro em casa, escolhido pelos líderes. Após a leitura de cada um, todos foram separados em grupos e escreveram um texto conjunto que conecta as obras.

Todos os livros da Sociedade dos Poetas Remotos são parte importante da visão da Mastertech e os conteúdos deles são citados com frequência em nossos cursos abertos. Se você gostou desta iniciativa, é bem provável que também goste de nossas aulas. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

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