Como um pensamento pode afundar seu barco. Ou não.

Muito se fala sobre liderança, ainda mais em períodos de críticos como a crise financeira de 2008, os desastres ambientais no Brasil, no Japão, e como o exemplo mais recente, a crise mundial gerada devido à pandemia. Alguns casos foram mais súbitos outros aconteceram de forma morosa, mas independente de como aconteceu, ter uma liderança efetiva é crucial para o desenrolar da situação.

É exatamente essa a narrativa expressa no livro A Incrível Viagem de Shackleton, escrito com excelência por Alfred Lansing, e no livro Elástico do autor Leonard Mlodinow. O primeiro autor descreve a história de uma expedição para a Antártida, que não atingiu seu objetivo, mas teve seu sucesso. Boa parte disso foi devido ao seu líder, o capitão Ernest Shackleton. Ao mesmo tempo, no livro Elástico é colocado o tema de como é relevante ter um pensamento flexível em situações de mudança contínua, como aconteceu na expedição de Shackleton. 

Shackleton era um explorador ambicioso que participou de uma época conhecida como “Era Heróica da Expedição Antártida”, um período não tão divulgado em livros de história, que ocorreu em meados do século XIX. O capitão sempre quis deixar seu nome gravado na história, e ele alcançaria seu objetivo através da chamada “Expedição Transantártica Imperial”, que tinha o propósito de atravessar o continente gelado à pé. Vale lembrar que as limitações tecnológicas dessa época impediam qualquer comunicação à essa distância. Se aventurar em territórios pouco explorados pela humanidade exigia muita audácia e um boa dose de fé.

Enfrentando adversidades que poderiam acontecer de forma similar em qualquer novo projeto, ele teve dificuldade em encontrar uma tripulação conforme a necessidade da expedição, adquirir financiamento, além de conseguir driblar o continente Europeu em meio à 1º guerra mundial. Essa situação inicial descrita, muito se assemelha ao que é visto hoje com novos negócios (startups). Existe uma falsa crença de que basta ter apenas uma ideia genial e tudo fluirá naturalmente. Na realidade, essa percepção ludibria o cenário de criação de um novo negócio, camuflando o trabalho árduo e sem glamour para montar e manter uma empresa.

Voltando à narrativa da expedição, ao chegar próximo do oceano Antártico, deparou-se com uma situação familiar aos navegantes: o congelamento. A tripulação já sabia que iria passar em meio ao gelo mas, talvez por uma má escolha do capitão, foi até uma área em que o gelo estava tão firme que prendeu a embarcação e por consequência afetou toda sua estrutura. 

Neste ponto, começa a ser notado a grande habilidade e flexibilidade do capitão responder de forma rápida em situações inconstantes. De uma viagem com a missão de exploração, rapidamente foi necessário se reinventar pois, havia se tornado uma missão de sobrevivência. Essa é uma capacidade que até hoje é vital quando líderes precisam mudar sua estratégia de forma rápida, abandonando planos e definindo novos objetivos.

Esse é um ponto de tensão durante a leitura: o que iria acontecer com aquela tripulação em meio ao nada, no frio congelante, sem qualquer tipo de comunicação? Além dos efeitos da ociosidade e do tédio que poderiam prejudicar qualquer iniciativa. Shackleton sabia disso e adotou uma postura, demonstrando um pensamento lógico, rápido e muito destoante do restante da tripulação. 

Ele foi uma pessoa com uma inteligência interpessoal aguçada, sabia ler pessoas e analisar as situações nas quais elas estavam envolvidas. Um exemplo disso é que, logo que o navio foi abandonado, ele percebeu que duas pessoas da tripulação seriam um problema se estivessem juntas dos outros. Um deles era muito pessimista, o que poderia afetar os outros de forma negativa. O outro gostava de ser bajulado e ter a atenção para si, e poderia provocar os outros tripulantes e até causar um motim. Como solução, Shackleton colocou ambos na mesma barraca que ele, pois ele percebeu que mantendo-os por perto ele poderia controlá-los e até mesmo ajudá-los, mantendo todos na mesma sintonia. Além disso, com os demais, manteve algumas rotinas como a de se alimentar em conjunto para que pudessem socializar, além de realizar as atividades junto com a tripulação. Ele não mandaria ninguém fazer algo que ele também não pudesse fazer.

Sem nenhum tipo de referência externa, apoio de governo ou qualquer tutorial de como liderar pessoas em uma situação extrema, ele conseguiu administrar o medo e ansiedade coletiva, que eram seus maiores inimigos,  através de rotinas, interação e a empatia em cuidar da sua tripulação. Ele sabia que a sua energia e postura tinham um enorme impacto naquelas pessoas e dependiam dele em voltar para casa.

E Shackleton não tinha mais o navio, não tinha mais a missão, nem seus investimentos porém, por ser muito rigoroso com seu próprio comportamento acreditou piamente no que estava fazendo, na sua motivação e na sua energia que ele passava aos outros. Este é um detalhe muito importante que denota um grande líder, é ter a capacidade de acreditar em si mesmo e no que está fazendo ao motivar os demais de sua equipe em um cenário muitas vezes desastroso.

Ele foi um exemplo, sem cometer erros? Não, houve falhas. Ao longo do livro fica perceptível que foram suas escolhas que desencadearam o navio ficar preso em meio ao gelo, a falta de treino de sua tripulação em manejar os cães de trenó e diversos outros pontos que nos registros não fica claro mas se houvesse mais tempo e dedicação, esta expedição poderia ter tido um final diferente. Mas este é outro detalhe importante: ele errou, a tripulação errou, pessoas erram e está tudo bem quanto à isso. A postura, o compromisso e a emoção são essenciais para achar uma solução para um problema. Sob essa mesma ótica, o livro Elástico, demonstra como um pensamento flexível, não convencional e mais vinculado com a emoção já remete ao um resultado positivo. Essa expedição poderia ter sido fadada ao fracasso completo, com nenhum sobrevivente se o capitão tivesse escolhido uma opção mais convencional, como por exemplo, aguardar até chegar o resgate.

Situações difíceis sempre ocorrem e a forma com a qual pensamos, o compromisso e a flexibilidade em lidar com a situação que pode significar a sobrevivência ou ficar estagnado no gelo esperando por uma mágica. A mágica nesse caso é o seu pensamento, a sua lógica, o vislumbre do mar sem gelo avistando a terra e não um navio prestes a afundar.

Este texto foi escrito por Bruno Pimentel e Diandra Andrade, os dois fazem parte do time da Mastertech e basearam esse post em suas leituras dos livros a seguir:

A Sociedade dos Poetas Remotos é uma iniciativa interna da Mastertech para manter o time conectado em tempos de quarentena. Cada pessoa da nossa equipe recebeu de surpresa um livro em casa, escolhido pelos líderes. Após a leitura de cada um, todos foram separados em grupos e escreveram um texto conjunto que conecta as obras.

Todos os livros da Sociedade dos Poetas Remotos são parte importante da visão da Mastertech e os conteúdos deles são citados com frequência em nossos cursos abertos. Se você gostou desta iniciativa, é bem provável que também goste de nossas aulas. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

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