A complexidade do olhar simples

O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar.

Eliane Brum

Nos últimos dias, começamos a ler paralelamente três livros: 

Economia Donut, da economista americana Kate Raworth

Psicologia do Dinheiro, dos cientistas comportamentais Dan Ariely e Jeff Kreisler

A vida que ninguém vê, da jornalista brasileira Eliane Brum

Cada um com seu estilo mas os 3 igualmente cheios de boas histórias, analogias e lições. Umas mais transformadoras e, consequentemente, profundas e outras um tanto quanto óbvias e que carregam aprendizados que podem nos ajudar no nosso próprio processo de auto conhecimento e auto desenvolvimento. 

Os três livros, apesar de tratarem de assuntos áridos e, aparentemente, distantes, se encontram em um ponto importante: Precisamos treinar a nossa forma de analisar as coisas que passam pela nossa vida. E aqui, o verbo certo é analisar mesmo. Não é sobre apenas olhar numa primeira camada do que os olhos enxergam, mas ir além com assuntos que, na maioria das vezes, olhamos apenas como um todo e não paramos para tentar entender cada uma das suas partes. 

Em Economia Donut, Kate Rarworth usa de uma analogia simples para explicar economia e propor um novo paradigma que altera o nosso modelo econômico atual propondo um sistema no qual as necessidade do planeta serão satisfeitas sem um crescimento ilimitado e sem esgotamento de recursos. Usando de uma imagem comum, uma rosquinha, ela explica economia de forma acessível, porém, sem perder a profundidade que o tema exige. Dessa forma, ela consegue racionalizar a informação de tal modo que ela deixa de ser custosa para quem a busca. Além disso, ela traz lições importantes para nossa visão da vida e dos negócios. 

A primeira vista, o livro é um tratado sobre economia do século XXI, mas olhar só para essa faceta seria ignorar outra muito importante: Como transformar assuntos áridos e complexos, para a grande maioria das pessoas, em um assunto acessível, simples e compreensível? 

E a respostas para essa pergunta, muitas vezes, está na forma como estamos acostumados a contar nossas histórias na vid, no trabalho, para nossos amigos… 

De maneira similar, Eliane Brum com suas narrativas do dia a dia encanta o leitor do livro A vida que ninguém vê, e demonstra um olhar treinado para a construção de narrativas acessíveis, em pautas que fogem do jornalismo tradicional. 

O que é uma história? Como contar uma boa história?  

O que Eliane e Kate têm em comum é que as duas construíram, ao longo do tempo e da prática das suas profissões, a habilidade necessária de trazer ao raso, coisas complexas e profundas. Habilidade essa que só é possível quando construímos repertório. 

Se pretendemos olhar para coisas complexas de forma diferente, precisamos treinar a nossa capacidade de enxergar. E aqui, o verbo correto é mesmo treinar. Usar uma rosquinha para explicar economia do século XXI ou contar a história de um senhor acumulador de forma completamente surpreendente não é para aqueles que pretendem se apegar a primeiras impressões. 

Se faz necessário estressar o olhar, treinar, olhar de novo, várias vezes, ler, ler mais um pouco, ler um conto, uma história de amor, uma revista em quadrinhos, ler matérias de jornal francês e, as vezes, de um jornal grego também, concordar, discordar, concordar discordando e discordar concordando.  Para enxergar melhor uma coisa é necessário enxergar várias outras coisas. Essa é a vida. Nunca é linear e simples, ou meramente pragmática. 

Para chegarmos numa visão única e pragmática, precisamos antes desenvolver uma visão não-pragmática. 

“As empresas mais inovadoras de hoje em dia são inspiradas pela mesma ideia: a de que o negócio delas é contribuir para a prosperidade do mundo.” – Kate Rarworth, A Economia Donut 

Os processos de inovação não estão primariamente atrelados ao pensamento de como inovar, mas sim, em olhar e enxergar através de uma nova ótica em como gerar valor ao que já existe.

E aqui que entra o livro A Psicologia do Dinheiro, do Dan Ariely e do Jeff Kreisler. O que os dois ensinam é que quando refletimos sobre a forma como gastamos e pensamos sobre dinheiro, precisamos desenvolver o hábito de não responder as primeiras respostas. 

“Quando não conseguimos, ou não queremos, pensar como deveríamos nas decisões que envolvem dinheiro, recorremos a todo tipo de atalho mental. (…) E com frequência nos levam a avaliar as coisas de modo incorreto”.  – Dan Ariely e Jeff Kreisler, A psicologia do dinheiro

O simples é bom. O objetivo é chegar no simples. Mas no caminho, temos que tomar cuidado com os atalhos criados por nós mesmos. 

No princípio 11 do Manifesto ágil, por exemplo, a simplicidade é a arte de maximizar a quantidade de trabalho que não precisa ser feito. Mas até chegar no ponto de ser simples existe muito pensamento complexo por trás. Existe muito repertório que precisa ser construído e desconstruído para não cairmos em vieses cognitivos básicos. 

E é aí que está o ponto de encontro entre os três livros. A primeira vista, os três assuntos não tem conexão, mas quando analisamos suas partes, há um ensinamento importante que, cada um deles na sua forma, entrega: Para o nosso auto desenvolvimento, temos que construir repertório. E se não o fizermos, vamos continuar olhando pra vida, para os negócios, para a economia, para nosso dinheiro, exatamente do mesmo jeito que sempre fizemos.

Este texto foi escrito por Érica Orosco, Lydia Assad e Marcos Machette, os três fazem parte do time da Mastertech e basearam esse post em suas leituras dos livros a seguir:

A Sociedade dos Poetas Remotos é uma iniciativa interna da Mastertech para manter o time conectado em tempos de quarentena. Cada pessoa da nossa equipe recebeu de surpresa um livro em casa, escolhido pelos líderes. Após a leitura de cada um, todos foram separados em grupos e escreveram um texto conjunto que conecta as obras.

Todos os livros da Sociedade dos Poetas Remotos são parte importante da visão da Mastertech e os conteúdos deles são citados com frequência em nossos cursos abertos. Se você gostou desta iniciativa, é bem provável que também goste de nossas aulas. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

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