Uma gota de lógica pode salvar muitos negócios

Uma prodígio. 19 anos. Stanford. O ano é 2004.

Junte o espírito da época, um dos centros científicos mais pulsantes do mundo, a incandescência da idade e temos ela, Elizabeth Holmes.

Coloque-se no contexto.

Os Estados Unidos não possuem sistema público de saúde universal, tipo o SUS, o que torna o sistema privado, de convênios particulares, a única saída possível.

O resultado é um sistema caro e que deixa muita gente de fora.

Junte a este quadro a aversão natural do ser humano a medidas preventivas e temos um quadro médico que potencializa doenças e enfermidades, que com um diagnóstico precoce poderia ser minimizado.

Elizabeth Holmes leu esse mesmo cenário e, impactada pela morte de um parente próximo, concentrou suas energias para evitar, segundo suas próprias palavras, que as pessoas dissessem adeus cedo demais, antes do tempo.

Sua ideia era simples, poderosa, genial e revolucionária ao mesmo tempo.

Uma picada indolor no dedo. Uma gota de sangue. Alguns poucos minutos e, voilà — A capacidade de diagnosticar até 200 (!) tipos de enfermidades.

Tudo isso a custos baixíssimos, equivalentes a uma fração diminuta dos valores cobrados pelos mesmos procedimentos no mercado.

Era demais. Poderoso, impactante, um degrau gigantesco na ciência médica.

Surge então, a Theranos, a startup de tecnologia em saúde mais destacada de seu tempo. Holmes virou estrela, foi equiparada a Bill Gates e Steve Jobs, reverenciada por políticos de peso e atraiu dinheiro, muito dinheiro.

Levantou quase 1bi de dólares em rodadas de investimento e teve seu valor de mercado estimado em 10 bi de dólares.

O mercado ficou em êxtase.

O conselho de administração da Theranos reunia cabeças brilhantes da elite americana, incluindo 3 ex-secretários de Estado. Tudo ia maravilhosamente bem, a empresa desenvolvia (?!) seu produto abaixo do radar, de forma discreta, e até o FDA (o equivalente da Anvisa nos Estados Unidos) concedia autorização comercial para que a Theranos pudesse oferecer seus serviços.

Aí veio a implosão.

A Wallgreens, gigantesca rede de farmácias, viu uma oportunidade da vida e fechou convênio com a Theranos, num movimento ousado e “esperto”, com a perspectiva de oferecer os testes em suas mais de 9000 lojas (uau!)

Assim, 10 anos depois da ideia ter nascido, chegaria ao mercado, em escala massiva, o criador, a criatura e seu produto revolucionário.

O resultado?

Bom, o resultado foi um desastre. Não havia um produto, ou melhor, havia, mas ele não era compatível com o “power point”.

A Theranos sequer havia desenvolvido a tecnologia que tanto alardeava publicamente e usava soluções de terceiros. Os resultados dos testes sanguíneos eram ridiculamente descalibrados e imprecisos, o que chamou atenção da comunidade médica, que se mantinha cética diante de uma premissa tão milagrosa (um teste tão amplo, com uma gota de sangue e a custos irrisórios? No way! ).

No fim, era tudo uma grande farsa, a Theranos faliu e Elizabeth Holmes foi processada pelo governo americano, por conspiração e fraude.

Diante disso tudo e de várias questões possíveis, algumas ficam explodindo na cabeça:

  • Como tantas pessoas próximas, altamente capacitadas e experientes, e durante tanto tempo, ficaram cegas ao óbvio?
  • Como essa hipótese não foi devidamente desenvolvida antes de assumir uma ambição comercial de escala?
  • Como os órgãos reguladores de saúde permitiram a liberação de um produto que não havia passado pelas fases tradicionais de testes?
  • Como os fundos de investimento despejaram dinheiro cegamente, sem sequer ter visto um protótipo funcional da ideia/produto?

Quer saber mais sobre a Theranos e sobre Elizabeth Holmes? Aqui vai uma tríade de dicas.

Filme: The Inventor | Livro: Bad Blood, Fraude bilionária no Vale do Silício | Artigo: Theranos is shutting down

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