Quebrando todas as regras

Uma masterclass com Oprah Winfrey

um texto sobre negociação, papéis e responsabilidades em cultura ágil e modelagem de produtos que desafiam as tendências e o status quo.

A anulação da condenação de Lula e a tentativa do (ex?!) casal real Meghan e Harry de reverter as condenações impostas pela opinião pública, por conta de seu afastamento do núcleo monárquico britânico, esquentaram as “timelines” na época.

Os bastidores do poder, tanto lá quanto cá, assumiram o holofote, ao menos por um instante, em meio às patacoadas do presidente, o noticiário alarmante da pandemia e os paredões e votações falsas de um reality show que concentra (e drena) boa parte da energia analítica dos nossos cidadãos.

Mas, esqueçam Lula, Meghan, Harry, o fulano e o BBB.

Concentrem-se em Oprah.

Se é pra falar de comunicação, julgamento, condenação, absolvição e reality show, a Masterclass é dela, a maior comunicadora de seu tempo.

Oprah Winfrey, 67 anos, no entanto, é mais que isso, e sua entrevista com o casal britânico é, desde já, um caso de estudo, pois subverte algumas regras tidas como boas práticas do mundo dos negócios.

Vamos abordar 4 delas:

1 — Negociação com clientes.

Sem intermediação, ela mesmo negociou com os clientes, ignorando os alertas de que sua proximidade íntima com o casal pudesse minar a credibilidade da entrevista.

Oprah foi direto ao ponto, logo no primeiro contato, onde disse que exporia seus objetivos, ouviria o deles, e que, a partir desse ponto, compreenderia se as duas partes teriam como convergir num acordo.

Ela não se posicionou de forma passiva ou deslumbrada com a chance do “furo jornalístico” e deixou claro que, se era pra fazer, seria do jeito dela, e os clientes reais que tratassem de decidir se isso lhes interessaria.

2 — Papéis e responsabilidades.

Em cultura ágil existem máximas que sugerem a boa prática de delimitar claramente quem faz o quê, de forma que isso preserve, entre outras coisas, a descentralização de autonomia que garante mais dinamismo na resolução de problemas.

Por isso, é recomendável que o Product Owner não acumule funções de Scrum Master e que este não caia na tentação de se tornar recursos do time ágil.

Se você não compreende os limites e interações destas funções, apenas tenha em mente que essa separação tem fundamentos lógicos claros, e empiricamente verificados, os quais não deveriam ser vistos como restrições, mas sim como o lastro que garante a organização flexível das culturas ágeis, preservando o objetivo central de buscar sempre a melhoria contínua.

Pois Oprah subverteu tudo isso.

Ela exerceu o papel de Product Ownerao se envolver na negociação direta com os clientes, garantindo que eles teriam aquilo que buscavam com essa exposição midiática, que tocaria em pontos sensíveis e polêmicos dos bastidores da monarquia britânica.

Foi Scrum Master ao organizar a produção do programa, eliminando uma variedade de impedimentos, desde os técnicos até os de negócios, pois a família real, se (e quando) exposta negativamente, ainda teria influência para afetar as relações comerciais que orbitam em torno de Oprah, afinal, mexer com a monarquia (assim como a máfia) “pode não ser bom para os negócios”.

Finalizando a subversão de papéis, ela também “entregou o produto”, conduzindo a entrevista e sendo a principal face do time ágil que colocou de pé o programa.

Mas, então pode acumular funções dentro da cultura ágil?

Só se você for a Oprah (ou alguém tão competente como).

3 — Gestão de risco em tempos digitais (exposição da marca a temas sensíveis).

Sem firulas retóricas, truques de marketing digital ou abordagens vazias, Oprah abriu discussões sobre racismo, suicídio, feminismo e corrupção, sempre com firmeza e empatia, sem precipitações em cravar julgamentos, mas também sem se esquivar de expor suas opiniões, numa aula de como se comunicar claramente, sem ambiguidade e sem a necessidade de transformar a conversa num espetáculo de ataques fulminantes e deboches hostis, como é o caso das redes sociais.

Oprah associou sua marca a temas sensíveis e polêmicos de forma honesta e clara, usando sua idoneidade, transparência, elegância e credibilidade para gerenciar os riscos que poderiam vir dessa exposição.

4 — Aposta em produtos “anacrônicos”

Estamos vivendo um frenesi por criação de conteúdos, o que envolve o uso de um conjunto de embalagens digitais, sendo que se destacam aquelas que têm maior potencial de se tornarem virais.

Isso envolve, por regra, evitar assuntos que exijam muita concentração ou sofisticação de raciocínio, o que resulta em tons de superficialidade e numa pseudo simplificação do mundo e de suas coisas.

Por isso é admirável que Oprah tenha investido, por meio de sua produtora, aproximadamente 9 milhões de dólares num produto que contraria o status quo.

Ela ousou produzir uma entrevista de duas horas, transmitida na TV aberta, que é hoje menos atraente que as tendências de streaming, abordando temas sensíveis, com foco nos bastidores da moribunda realeza britânica e tendo como personagens um casal que não faz nada de relevante.

Em termos de produção, usou cenografia simples e não fez marketing, deixando que a influência dos envolvidos se encarregasse do “buzz”.

Pra completar, fez isso em meio à pandemia, num país cujos bastidores políticos estão ecoando a transição de poder mais turbulenta da história, de Trump para Biden, e portanto, com pautas bem mais interessantes do ponto de vista jornalístico.

Resumindo, assumiu riscos de formato, canais de distribuição, temática (escopo), timing e personagens, e, mesmo assim, criou um dos maiores sucessos televisivos recentes, com audiência maior que a do Globo de Ouro e do Emmy somados, estes que são produtos icônicos da TV americana, famosos por suas audiências estrondosas.

Oprah rompeu com os padrões e moldou mais um sucesso através de seus inúmeros talentos como executiva e comunicadora, mas, sobretudo por ser verdadeiramente transparente num mundo de realezas dissimuladas.

Pode não dar certo sempre, mas no longo prazo é assim que se constroem os grandes ícones.

Se você quer saber mais sobre os bastidores dessa empreitada, leia esse artigo da revista Time

What Oprah Understands-and the Royals Refuse to Learn-About 21st-Century Celebrity

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Este texto foi originalmente publicado no dia 11/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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