Qual a origem de suas crenças?

um texto sobre pensamento computacional, negócios e psicologia comportamental

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“Provenance” é a palavra.

Vem do francês e significa proveniência ou procedência, o que no mercado das artes é o atestado de valor de uma obra.

Esse é um mundo de exorbitâncias, inflacionado por uma das equações básicas da economia — oferta e demanda.

Há muita procura por parte de colecionadores e novos ricos, no entanto, não existe e não se produz arte na mesma velocidade desse desejo.

Se você tem uma obra de Mark Rothko ou um Jackson Pollock, quer dizer que você tem status e riqueza.

Os dois são parte de um movimento artístico conhecido como expressionismo abstrato, recente na história das artes, e cujas obras sofreram um ataque especulativo nas últimas décadas, sendo transacionadas por dezenas de milhões de dólares no chamado mercado secundário.

Arte é investimento de risco, e é comum, de tempos em tempos, aparecerem novas joias no mercado, as quais faziam parte, por exemplo, de coleções secretas de pessoas discretas, cujos herdeiros decidem por se desfazer de espólios milionários, gerando frenesi entre colecionadores e investidores.

Foi o que aconteceu nessa história.

Nas últimas duas décadas, uma das galerias mais prestigiosas de Nova York, a centenária Knoedler, passou a transacionar raridades em volume e frequência incomuns, o que levantou dúvidas sobre a procedência dessas artes.

Onde estariam, esse tempo todo, até serem descobertas, essa coleção estonteante de artes desconhecidas do expressionismo abstrato?

De quem a galeria comprou? Qual a procedência?

Foi essa dúvida razoável que fez o mercado de artes e o FBI a desmontar o maior esquema de fraudes da história da arte.

Essa é a história de “Fake Art”, documentário que estreou semana passada na Netflix.

Foto: Netflix

A história da investigação é uma aula de pensamento computacional, na parte daqueles que se aplicaram em investigar a fraude, pois tiveram de se decompor linhas cronológicas, checar fatos desconhecidos com suposições lógicas, identificar e reconhecer padrões artísticos e de autenticidade das obras, além de criarem uma espécie de algoritmo para identificar casos parecidos.

Na parte dos galeristas de arte envolvidos na fraude, especulavam-se duas hipóteses: ou eram muito burros, por também terem sido enganados durante tanto tempo, ou participaram ativa e conscientemente no esquema.

Eles justificam-se com a primeira hipótese, mas não alegaram burrice, e sim terem sido levados a acreditar que as obras eram de boa procedência, pois seriam propriedades de um mesmo negociante, de origem secreta, mas cuja história, inverossímil em sua maioria, ainda assim tinha alguns elementos que pareciam verídicos.

Aqui a lição é de psicologia comportamental, com o efeito do viés da confirmação, onde, diante de um conjunto de informações, escolhemos acreditar naquelas que reforçam nossas crenças e expectativas, ignorando todo o resto, mesmo quando confrontados com evidências que a sustentam.

Por isso perguntamos.

Qual a procedência de suas crenças e de seus conhecimentos?

P.S.: descobriu-se que todas as artes eram falsificadas por um professor que morava no Queens, em NYC, um amante das artes e que havia concluído estudos na escola de onde saíram os maiores nomes do expressionismo abstrato.

Pei-Shen Qian é um chinês que antes de emigrar para os Estados Unidos tinha uma carreira promissora de pintor em Pequim, mas que teve de sobreviver e, por isso, largou a vocação e se tornou professor de matemática.

As obras dele, originais pra si e falsas para o mundo, pois se pretendiam passar por de outros artistas, enganaram dezenas de especialistas, os quais se encantaram cegamente, ao ponto de atestarem veracidade por semelhança.

Pei-Shen Qian é a síntese da inteligência artificial.

Como professor de matemática, era hábil em decompor modelos (estilos artísticos do autor), em reconhecer padrões estéticos e, finalmente, em abstrair e construir os seus próprios algoritmos produtivos. Mas para isso, foi imprescindível seu conhecimento de arte.

Assistam Fake Art.

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Este texto foi originalmente publicado no dia 02/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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