O rap da inovação

“Straight Out of Compton — a história do N.W.A”, é um filme que conta a história do grupo precursor do “gangsta rap”

Essa história pode ser vista por ângulos distintos.

Do ponto de vista artístico, a inovação da época consistia na captura do improviso.

Era o tempo da explosão dos DJs e de sua liberdade de combinar músicas e estilos, aparentemente antagônicos.

O que soa normal hoje, era subversivo na década de 80 — fatiar músicas, combiná-las de outra forma, acelerar, desacelerar, isolar componentes, testar hipóteses ao vivo, nos shows, sem recursos digitais.

Foi a ruptura de um padrão estético e sonoro, complementado por letras viscerais, realistas e que expunham a crueza da segregação social, representando de forma direta o que os fãs viviam.

Por outro ângulo, foi a disrupção de um processo produtivo.

As lideranças técnicas, como a e de produtores musicais, tornaram-se os expoentes da nova indústria.

Eles controlavam a execução, guiavam artistas e consolidavam um novo jeito de fazer arte e negócios. Equivaliam, dentro de uma cultura ágil, ao papel dos “Scrum Masters”

Eram também os determinantes das novas tendências e, de certa forma, operavam no formato de “marketplace” musical, centralizando a oferta e orientando a demanda.

O estúdio, nesse contexto, deixava de ser uma linha de montagem técnica e passa a ser um espaço dinâmico, de criação e execução coletivas, onde artistas e produtores simulavam suas ideias em tempo real — verdadeiros “coworkings” musicais.

Ali, naquele momento, ficaram evidentes as separações de responsabilidades entre as lideranças de negócios, as lideranças técnicas e os times de trabalhos.

Ficou evidente um novo jeito de organizar o fluxo de trabalho.

A questão com o rap envolvia o dinamismo de refletir o que acontecia nas ruas, de uma forma que a mensagem não se diluísse.

Para isso era importante observar a realidade, escrever , compor, produzir e lançar, mas de uma forma rápida e organizada, para que o produto chegasse ao mercado ainda fresco.

Essa assertividade artística criava instantaneamente uma nova legião de fãs, ao mesmo tempo que exigia do “mercado regulador” uma adaptação de costumes. Ação, feedback e reação.

Polícia, políticos e formadores de opinião não compreendiam a mudança, e por não assimilar essa escalada cultural, criavam mecanismos de repressão que apenas serviam para dar ainda mais publicidade para esse novo modelo de fazer negócios.

Foram épocas de efervescência musical e de turbulência social, onde as coisas mudavam o tempo todo.

Estávamos na década de 80 e o rap se posicionava como a rede social real. Era através da música que se refletiam as atitudes dos jovens e suas formas de expressão, da música à moda, da vida social às discussões políticas.

Foi ali que nasceu o ecossistema dessa cena musical, capitaneado por figuras como Dr. Dre e Jay Z, que compreenderam que o sucesso do movimento estava na manutenção de sua autonomia de negócios, de controle da cadeia produtiva, mas, sobretudo de uma forma organizada de gerir e dar forma ao caos criativo de um ritmo que é baseado no improviso.

“Straight Outta Compton — A História do N.W.A” é um filme sobre a criação de ecossistemas de inovação, onde é preciso mediar turbulências artísticas e ter flexibilidade de adaptação às constantes mudanças de mercados instáveis, ainda em fase de consolidação.

E, sim, isso é crítico, pois ao inovar, muda-se o entorno, muda-se o mercado. E o mercado também vai revidar, exigindo um complexo jogo de adaptações mútuas, até que as coisas se estabilizem.

Aí, quando chegar esse momento, é preciso inovar novamente.

O filme está na Netflix (não é novo, é de 2015).

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Este texto foi originalmente publicado no dia 05/04/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

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