O que pode te encalhar hoje?

Kanban é um framework ágil utilizado para gerenciar a cadência (ritmo), a sequência (ordem) e a alocação de força produtiva (recursos).

Espera-se com esse framework, que tem por característica ser visual e descentralizado, que os envolvidos tenham acesso ao fluxo lógico e cronológico de um processo, a partir do qual devem desenvolver estratégias de otimização operacional.

Dentre os benefícios esperados, destaco 3:

  1. ganho na velocidade de entrega,
  2. minimização de erros e defeitos, e
  3. redução de downtime (tempo que um sistema fica inoperante).

⤚ Vou me concentrar no 3.

Existe uma máxima que diz que um sistema é tão forte quanto o seu elo mais frágil, o que por sua vez nos faz pensar e desenvolver alternativas que reduzam vulnerabilidades.

Por vezes, de forma caricatural, chamamos os elos frágeis de “gargalos”, termo utilizado no kanban para designar impedimentos e obstáculos que restringem o fluxo de produção.

Também é clássico o entendimento de que não existem sistemas perfeitos, pois ao capturar a essência das relações humanas, naturalmente estão sujeitos aos processos erráticos e caóticos que derivam disso.

Por isso, somos “positivamente obcecados” em tornar os sistemas mais estáveis e seguros, desde que sejam eficientes (rápidos e assertivos).

Ou seja, perseguimos a redução de gargalos.

Diante disso, pergunto:

O que você diria sobre uma inovação que reduzisse drasticamente o tempo de execução de uma tarefa (com ganhos que poderiam variar de 50 a 70% do tempo atual)?

O Canal de Suez, localizado no Egito e construído 150 anos atrás, foi essa inovação que permitiu saltos espetaculares na dinâmica comercial entre Europa e Ásia, tornando possível uma abreviação da rota marítima entre os dois continentes, cuja alternativa anterior envolvia navegar 7.000 quilômetros contornando o continente africano.

Fazendo uma conta rápida e assumindo uma velocidade média de 50km/h, é possível estimar uma redução entre 5 e 7 dias no tempo do frete, o que permitiu ganhos competitivos que reforçaram a rota marítima como o mais eficiente dos meios de transporte logístico.

Assim como o Canal do Panamá, que serviu aos mesmos objetivos no continente americano, o Canal de Suez é uma passagem marítima estreita, de aproximadamente 365 metros de largura, que, tal como uma “veia fina”, tem a responsabilidade de manter um fluxo contínuo e vital para as relações econômicas.

Pois esse canal, por onde trafegam 12% do transporte marítimo mundial, está literalmente bloqueado pelo “Ever Given” — uma gigantesca embarcação de 400 metros de comprimento e mais de 200 mil toneladas — que foi surpreendida por uma tempestade atípica de ventos e de areia, que o empurraram para uma posição diagonal, “meio que embicado”, criando um inesperado congestionamento de navios.

Foto aérea do navio encalhado no Canal de Suez

As autoridades egípcias estimam que pode levar semanas para desencalhar o navio, o que vai provocar um prejuízo na casa dos bilhões de dólares, retardando e encarecendo transações comerciais em todo o mundo.

Esse evento é exemplar do que significa um gargalo num processo produtivo, e também expõe, de forma didática, uma das fragilidades do sistema de transporte marítimo, cuja eficiência é limitada por uma variável estrutural (e natural), para a qual não existem soluções rápidas, óbvias e baratas.

Voltando a definição de Kanban, a ocorrência de situações desse tipo nos leva a refletir sobre os riscos envolvidos em nossos processos e/ou modelos de negócios.

O que fazer, quando o nosso processo tem uma etapa que pode ser tão restritiva como essa, ao ponto de tornar o sistema inoperante por semanas?

Identificar os pontos mais sensíveis, críticos e frágeis de um sistema não garante que não seremos surpreendidos por eventos extraordinários como o do “Ever Given”, mas, por sua vez, nos permitem desenvolver estratégias de contenção de danos e contingenciamentos operacionais.

Numa economia altamente conectada e dependente, o efeito dominó de um evento de paralisia, como o que se vê no canal de Suez, atinge em cheio o coração da atividade econômica.

É o dilema atual — quanto mais eficiência, mais risco potencial.

É muito claro que estamos nos tornando mais eficientes, a medida que reduzimos o “peso” que carregamos. Entenda-se por minimização de peso — por exemplo — o fato de que não precisamos acumular estoques e que nosso planejamento de demanda pode ser cada vez mais ‘assertivo’.

Dessa forma, ao rastrear a cadeia logística, podemos dar previsibilidade de atendimento aos nossos clientes, ao mesmo tempo que movemos nossa cadeia de fornecedores de forma sincronizada para atender esses interesses produtivos.

É um grande balé sincronizado, mas que ainda é frágil, segundo os parâmetros atuais de conveniência e de excelência comercial.

É importante salientar isso, uma vez que a definição de fragilidade é constantemente renovada pela evolução do conceito de conveniência, ao ponto que, se antes era aceitável uma indisponibilidade sistêmica na dimensão dos “dias ou horas”, hoje é considerado frágil um sistema que se torna inoperante na dimensão “dos minutos ou segundos”.

Aproveitem essa reflexão e raciocinem sobre os seus processos, tentando identificar onde está o Canal de Suez da sua operação e quem, potencialmente, pode ser o navio que vai encalhar, “caso bata um ventinho atípico”.

O uso de Kanban é amplamente recomendado para construir uma cultura que favoreça esse tipo de gestão.

Bom feriado para todos.

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Este texto foi originalmente publicado no dia 26/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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