O foda-se é como a pasta de dente…

… pois uma vez que é expelida do tubo, não é possível retorná-la para o mesmo lugar de origem.

Woody Allen aplicou essa mesma figura de linguagem em um dos seus filmes, com a diferença de ter usado entropia no lugar do “foda-se”.

Apenas adaptei, mas a essência é a mesma. Explicar a irreversibilidade de certas ações e comportamentos.

Walter White, cidadão cônscio (?!), meia idade, professor de química, socialmente desencaixado e incapaz de prover estabilidade para a sua família, viveu sua entropia particular.

Certo dia decidiu que era o momento de dar um basta.

Cruzou a linha que rompe os princípios, abandonou todo e qualquer esforço de seguir os códigos sociais, criando pra si uma justificativa que o absolvia moralmente por, enfim, dedicar-se a cuidar dos seus próprios interesses.

Por cima de todos, acima de tudo, inclusive da lei.

Egoísmo sobre o coletivismo.

Walter White apertou o tubo da pasta de dente sabor “foda-se” e jamais voltou ao seu estado natural.

É esta persona crível que fez de Breaking Bad um fenômeno do entretenimento. pois ela expressa a falibilidade humana e uma angústia universal.

Há dias que penso em cruzar a linha (dentro da lei, claro) e abandonar os meus códigos. Na pandemia, esse sentimento acentuou-se. Talvez eu rompa a minha membrana particular — não hoje, amanhã talvez.

Digo isso pois acabei de assistir a série “Your Honor” — 1 temporada, 10 capítulos, Amazon Prime.

É um produto embalado para contrastar com Breaking Bad.

No lugar do professor de química, um juiz de direito. O homem antiquado dá espaço para um cidadão atlético e culturalmente versátil. Como cenário, a efervescência cultural de New Orleans sobrepõe a aridez de Albuquerque. Em vez de laboratórios de metanfetamina, tribunais. E assim vai.

“Your honor” foi concebida esteticamente como uma antítese de Breaking Bad, mas é um produto que tem a mesma essência — questionar a filosofia do certo e do errado, a moralidade das decisões, as mazelas da alma humana.

Walter White, em “Breaking Bad”, e Michael Desiato, em “Your Honor”, são a mesmíssima persona em dois produtos aparentemente opostos e que usam de caminhos diferentes para chegar no mesmo extravasamento emocional — simbolizados por um arquétipo — onde se discute a clássica ambiguidade humana.

Não por acaso, os dois personagens são interpretados pelo mesmo ator, o fenomenal Bryan Cranston.

A concepção de personas na modelagem de serviços e produtos é um recurso altamente eficiente, sobretudo por trazer emoções e sentimentos para um processo que se faz lógico e conduzido por um framework padrão.

A introdução da persona em processos de design thinking é um poderoso gatilho, talvez o maior, para que os envolvidos percebam o desabrochar de uma ideia, onde ela sai do campo da fantasia e começa a pavimentar sua entrada no mundo real.

De certa forma, criar persona é um processo entrópico, semelhante a pasta que sai do tubo.

Pratiquem esse recurso criativo, mas o façam com responsabilidade.

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Este texto foi originalmente publicado no dia 24/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

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