Não culpem o mensageiro algoritmo

Um texto sobre algoritmos, causa raiz, sonhos, crack, presidente e Skid Row, com dicas culturais

∎∎∎

A matemática da vida é esquisita e injusta.

Me dei conta disso ainda na infância, num momento de epifania.

Se eu, uma massa ainda mal formada de 6 anos, tinha tantos sonhos, então todo mundo também os teria, logo, quem, no mundo, seria o responsável por conciliar sonhos, como se fosse um banco central.

Pra mim, já era óbvio que meu sonho poderia ser pesadelo de alguém, e que haveriam ganhos e perdas no caminho.

Também na infância, ali na década de 80, eu tinha cabelos longos e imitava o Sebastian Bach, vocalista do Skid Row, banda que eu amava.

Bom, eu envelheci.

Descobri mais tarde que Skid Row era também o nome de uma das regiões urbanas mais violentas do mundo, distribuída em 56 quarteirões bem no meio de Los Angeles, um pesadelo na cidade do sonho hollywoodiano (dica: tem um doc na Netflix chamado Mistério e Morte no Hotel Cecil, que aborda, entre outras coisas, a degradação dessa região)

Essa dinâmica de sonhos e pesadelos veio à tona novamente nesse final de semana, fortalecida por reflexões técnicas.

Assisti um outro documentário sobre a origem do crack nos Estados Unidos, não por acaso, tendo seu epicentro também no Skid Row.

Luis Sinco / Los Angeles Times via Getty Images

O nome do doc é “Crack, Cocaína, Corrupção e Conspiração”

Essa é uma das drogas mais devastadoras e mortíferas, mas que antes de destruir provoca depressão intensa, desinteresse geral, cansaço, paranoia, desconfiança, medo e agressividade.

Visto dessa forma, parece que estamos, no Brasil, todos mergulhados nos efeitos do crack desde que a pandemia começou.

Vendo o filme, fui guiado pelo roteiro a tentar compreender a causa raiz do problema.

Início da década de 80, governo Reagan, uma depressão econômica, um desemprego brutal sobre os mais pobres, famílias inteiras desestruturadas, uma epidemia mundial de Aids.

Some-se a isso uma América Latina governada quase que exclusivamente por militares, com guerras civis e com o tráfico de drogas construindo suas rotas internacionais, muito pela demanda de cocaína que se destacava como uma droga recreativa usada nas boates e danceterias americanas.

Enquanto uns dançavam e cheiravam, milhões perdiam emprego e inundavam as ruas, buscando alternativas de vida na informalidade, exatamente no momento em que vender e traficar drogas era um mercado emergente.

Foi essa tempestade perfeita que fez se alastrar o crack, variante menos nobre da cocaína, por isso mais barata, sendo consumida por via oral, aquecida em cachimbos, e com efeitos quase que instantâneos no cérebro, gerando uma dependência extrema e fatal.

O que se viu depois, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo, foi uma tentativa de resolver o problema criminalizando o tráfico e o uso, o que é óbvio, mas não suficiente, como temos percebido, pois é uma medida superficial, que não vai na raiz do problema.

Quando se vê esse documentário, a gente tem um momento de pane cerebral, de desorientação.

Percebemos que as respostas para problemas estruturais não são simples e que estão longe da superfície.

Isso cabe na vida e também nas empresas.

Ao mesmo tempo, dá uma certa angústia não saber exatamente onde devemos parar de cavar, para encontrar a causa raiz.

No limite, esse é um dilema lógico, e para o qual a computação desenvolveu mecanismos chamados algoritmos, que são sequências de ações organizadas pra resolver um problema do jeito mais eficiente.

No entanto, mesmo os algoritmos precisam de instruções sobre como parar, caso contrário entrarão em loop eterno.

Como dica pra esse tema, leiam o livro “algoritmos pra viver”

Nesse caso existe um conceito chamado algoritmo de parada ótima, que determina estatisticamente, em função de uma amostra, qual o ponto onde sua instrução atinge o máximo de valor e, partir do qual, os ganhos de se continuar rodando a operação não justificam o tempo de espera (processamento).

No caso de delimitação de um problema, nos negócios ou na vida, o ato de encontrar uma causa raiz envolve a técnica dos 5 porquês, que, estatística e empiricamente, indica o ponto onde estamos próximos da causa de um problema.

Basicamente funciona como uma cadeia de porquês, sempre emendados a partir da resposta anterior.

Exemplo:

Por que eu gostava de Skid Row?

Por que meu irmão gostava (notem que isso não me leva a lugar algum, por isso eu devo emendar outro porque, e assim sucessivamente até o quinto nível de indagações.

Nesse caso, a segunda pergunta seria:

Por que seu irmão gostava?

Sacaram?

Essa técnica, quando aplicada de maneira responsável, é poderosa pra resolver os problemas certos e de forma definitiva.

Mas tem um detalhe importante.

Eu usei a palavra responsável no parágrafo acima, pois tanto a técnica dos 5 porquês, quanto os algoritmos e também os omeletes, dependem da qualidade de entrada de dados.

Essa é a máxima do pensamento computacional.

Entrada, processamento e saída.

Se as entradas são ruins, não culpe o algoritmo ou os 5 porquês, pois eles são meios (processamento) para um fim que já nasceu viciado.

Ficar reclamando é perda de tempo, assim como bater na mesma tecla de sempre culpar o inepto presidente que temos, com seus traços de sociopata.

Ele é apenas fruto de um algoritmo social prejudicado por entradas de dados sujos.

A causa raiz, portanto, não é ele.

Insistir nisso é perda de tempo, ou “Wasted Time”, minha música preferida do Skid Row, a banda da infância, onde eu saquei, no meu algoritmo particular, que não haviam espaços pra todos os sonhos de todas as pessoas.

∎∎∎

Este texto foi originalmente publicado no dia 05/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

Deixe uma resposta