Hey, Ho, Let’s Go.

A história de como o TikTok pode ser considerado o novo Ramones.

”Hey, Ho, Let’s Go….“ é a primeira frase da primeira música do primeiro álbum da banda mais icônica e longeva do punk.

Dizer que os Ramones mudaram a música é forçar a barra, mas ignorar que eles mudaram o jeito de fazer música (e os negócios) é simplesmente não enxergar a barra.

Eles chegaram de forma barulhenta, avassaladora, com pouca ou nenhuma técnica, com estilo sujo, sem que as pessoas pudessem entender o que estavam acontecendo.

Como alguém poderia ousar “vender” algo tão cru, sem polidez estética e numa dissonância perturbadora contrária a todos os códigos sociais e de negócios?

Os Ramones tomaram de assalto o mercado e criaram as bases do “do it yourself”, movimento que se espalhou para além da música, influenciando outras áreas da cultura e dos negócios, inclusive, a primeira geração de empreendedores do vale do silício — Steve Jobs reconheceu isso em entrevistas.

Não à toa, essa primeira música se chama Blitzkrieg Bop.

Blitzkrieg é um termo de estratégia de guerra, que significa um ataque surpresa, rápido e letal, coordenando operação aérea e terrestre, com o objetivo de liquidar o oponente em um momento inesperado.

O ataque fulminante de Israel contra o Egito na “Guerra dos Seis Dias”, considerado um dos maiores feitos estratégicos de todos os tempos, é o exemplo máximo de blitzkrieg (link aqui: https://bit.ly/392IVzT ⤚ caso não conheça a história — serve como um curso de estratégia).

Aliás, a primeira vez que ouvi a expressão em seu sentido estratégico foi memorável.

Conto rapidinho.

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Eu trabalhava no Insper no início de minha carreira e estávamos em um evento de “team building” no interior de São Paulo.

Estava previsto na programação uma atividade de “paintball” (anos 2000, tá?), onde algumas equipes duelariam estrategicamente em um vasto campo aberto, usando como armas umas metralhadoras de brinquedo equipadas com bolinhas de tinha.

Eu tive a “sorte” de cair no time de Claudio Haddad, que não se fez de rogado, deu uma bela carteirada e assumiu pra si o papel de estrategista-chefe, ele que era dono da escola, empresário influente e ex-banqueiro de muito renome.

Claudio disse que teríamos de fazer uma blitzkrieg, e eu adorei a ideia de sair atirando e cantando “hey, ho, lets go”, mas ele me explicou que não significava isso exatamente, mas sim coordenar ataques em alvos específicos, tal como um assalto, respeitando o termo por sua significância estratégica e não pela atitude punk.

Acontece que nos outros times o pessoal adotou exatamente a estratégia punk, e como vocês sabem, os punks odeiam o sistema, e o Claudio Haddad era o sistema, e o nosso time, como descobrimos de forma muito precoce, era o alvo principal de todos os outros squads.

Tão logo o jogo começou, mal tivemos tempo de nos entrincheirar e já estávamos todos alvejados de tintas, das cabeças aos pés, numa saraivada de tiros que teria feito a ‘Guerra dos Seis Dias’ ter durado uns 20 minutos.

Nosso time parecia o quadro Guernica, só que repintado por Jackson Pollock.

Claudio imaginou que sua blitzkrieg teria efeito, mas ignorou que ele mesmo era o alvo.

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Por que conto isso?

Para dizer que Netflix, Youtube (a.k.a Google) e Instagram (a.k.a Facebook) estão organizando uma blitzkrieg contra o TikTok, que por sua vez já sofreu assédios do governo americano e também uma tentativa de aquisição fracassada patrocinada pela Microsoft.

O TikTok, que me perdoem a blasfêmia, é o novo Ramones.

Assim como os desajustados nova iorquinos e a música, o TikTok não criou o conceito de redes sociais, mas certamente mudou o jeito de se comportar nelas, introduzindo uma certa transgressão juvenil, ecoando certas reminiscências da essência punk no jeito de fazer as coisas.

Os números reforçam isso, exatamente na semana onde o app ultrapassa o Instagram em total de usuários {link aqui: https://bit.ly/396j0r7 }, o que coloca um reluzente “alvo em suas costas”.

O TikTok virou o adversário que precisa ser derrubado e os movimentos recentes são inequívocos de que existe uma blitzkrieg em curso.

Basta ver a quantidade de cópias que estão surgindo:

O Youtube lançou o “Shorts” {link aqui: https://reut.rs/3f4vZxk }, a Netflix lançou o piloto do “Fast Laughs” {link aqui: https://bit.ly/311Yt2o }, e o Instagram, que já tinha lançado o “Reels”, está planejando uma versão kids do seu aplicativo {link aqui: https://bit.ly/3caQuGO }, mirando nas crianças com menos de 13 anos, público dominado pelo TikTok.

Depois do insucesso na tentativa de desregulamentar o aplicativo no mercado americano, mesmo com a atuação incisiva de Donald Trump, essas iniciativas das Big Techs se configuram como um esforço combinado e urgente para conter o avanço do aplicativo chinês e reconquistar pedaços estratégicos de mercado.

Talvez seja tarde para conter a TikTok mania.

Veremos.

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Este texto foi originalmente publicado no dia 23/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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