Estratégias colaterais — Quando Lupin usa Nike

Em boa parte do tempo, nossas estratégias não são nossas, elas são colaterais.

Em certo ponto da última década, a Netflix experimentou o acirramento da concorrência no mercado americano de streaming.

Era uma dinâmica esperada, onde surgiram novos players e as táticas de atração se diversificaram, o que provocou aumento nos custos de captação de novos clientes.

Ao mesmo tempo que jogava o jogo doméstico no mercado onde as tendências se criam e se tornam um farol para o mundo, a Netflix identificou que apenas essa linha estratégica não seria suficiente.

Foi aí que ela se abriu globalmente, acessando os mercados da chamada cauda longa, ainda pouco explorados e com baixa concorrência.

Criou-se espaço para as produções regionais, com a escalada de sucessos que fizeram o caminho inverso, saindo de suas fronteiras locais e se tornando mundialmente conhecidas.

Tivemos Narcos, La Casa de Papel, Fauda, o Califado, 3%, Borgen, Vikings, entre outras, sendo que algumas destas eram produções originais, feitas pela própria Netflix.

Quando isso acontece, com a Netflix ou com outra empresa que seja tão influente como, rompe-se uma membrana comercial que cria mercados colaterais.

É mais ou menos parecido com o fenômeno “campus de faculdade”, onde novas instalações criam um estímulo nos arredores, com pequenos comércios que passam a explorar aquele novo fluxo de consumidores em suas necessidades acessórias, o que faz proliferar, por exemplo, bares e restaurantes.

No caso da Netflix, um exemplo recente foi a estratégia de “product placement” da Nike na série Lupin.

Tal artifício de marketing faz uso da influência cultural de um produto de entretenimento, com o objetivo de introduzir hábitos de consumo (produtos ou serviços) na dinâmica dos personagens, de forma natural, não invasiva e sem prejuízo artístico.

Foi o que fez a Nike com o carismático ator Omar Sy, protagonista de Lupin e fã da marca, cujo personagem sempre vestia modelos da linha de tênis “Air Jordan”.

A estratégia foi um sucesso, com um impacto enorme na busca e, consequentemente, na venda desse produto.

Esse recurso não é novo, ao contrário, Hollywood sempre fez isso, assim com a Globo e qualquer empresa que produza conteúdo de entretenimento.

O que importa é entender quais são os novos canais e como eles se desenvolvem.

Ressalta-se que a Nike fez isso numa série francesa, o que cria um vínculo forte entre a marca e um símbolo pop da cultura local, o que serve aos objetivos estratégicos da empresa americana, líder mundial, mas que na Europa luta contra o domínio da Adidas, que é uma empresa alemã.

A Netflix, ao desenvolver sua estratégia de crescimento global, abriu canais colaterais que podem ser explorados por empresas de outros segmentos, com um leque enorme de possibilidades.

Em termos estratégicos, importam as nossas coisas, mas também deveriam importar as estratégias dessas grandes empresas que criam tendências e modificam comportamentos.

Essa reflexão tende a ser mais constante e dinâmica, com um emaranhado de estratégias que se cruzam e se influenciam mutuamente.

Reflitam, por exemplo, o que pode acontecer no seu negócio, independente do que você faça, com a decisão da Tesla de aceitar bitcoin para aquisição de seus produtos.

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Abaixo vai a reportagem que explica a associação entre a Nike e a série Lupin:

https://www.uol.com.br/nossa/listas/o-tenis-mais-buscado-nos-ultimos-tempos-nao-sai-dos-pes-das-celebridades.htm

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Este texto foi originalmente publicado no dia 08/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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