Dignidade Lógica

Cazuza escreveu que raspas e restos lhe interessavam e eu adorava cantar essa parte da música, especialmente quando meu irmão me oferecia sobras de comida.

Só mais tarde fui entender que a letra era uma infantil chantagem amorosa, mas a expressão ficou e, posso dizer, virou até uma espécie de filosofia.

Quase tudo que a Mastertech faz envolve reaproveitamento.

Esse texto é resto de uma ideia, raspa de um pensamento e quando estiver pronto é possível que vire outra coisa.

Entendemos isso como economia circular e maximização de alocação de recursos.

É uma questão de manter os elementos na natureza o máximo de tempo possível, reutilizando, reciclando e subvertendo usos, ou, simplesmente, reduzindo desperdícios na cadeia produtiva, logística ou de consumo.

Aliás, não se trata de responsabilidade social ou preocupação climática mas sim, de uma certa dignidade lógica pois o desperdício é uma afronta biológica, logo, um desrespeito à vida.

A Lime é uma empresa americana de bicicletas elétricas. Dessas que fazem parte do modal de transportes urbanos e que são usadas no sistema de compartilhamento inteligente, com pontos espalhados pela cidade.

Esses equipamentos, por sua natureza de uso cíclico e frequente, sofrem de prematura obsolescência, o que gerou um problema de negócios, pois a empresa precisa repor novas bicicletas; no entanto, boa parte das peças antigas não são reaproveitáveis na fabricação.

O que fez a Lime?

Abstraiu, olhou à sua volta e encontrou parceiros que pudessem dar usos alternativos, como a Gomi, que aproveitou as baterias para fabricar caixas de som com conexão bluetooth.

É um mercado de segundas vidas, mas isso não é poesia, é lógica da economia enquanto ciência social, portanto, subverta tudo, menos isso.

Já o Dr B. é a história mais interessante da semana, pois prova a engenhosidade do humano, em sua simplicidade e elegância de raciocínio.

Antes, um parênteses breve.

Reaproveitar é uma espécie de alquimia, logo, é preciso desmontar as coisas e entender suas funções e propriedades para estimular um pensamento criativo alternativo; por isso somos fãs do binômio pedagógico “construcionismo-construtivismo” — que pressupõe aprendizado por intenção e por convívio com o mundo e com as pessoas, em modelos adaptativos.

Isso não é cultura maker, é a cultura no sentido mais amplo — de entender o ambiente a sua volta e de criar as ferramentas adequadas para viver nele.

Parênteses fechados.

O Dr. B é uma plataforma que tem meio milhão de assinantes, dispostos em uma complexa fila digital não linear e não sequencial, à espera de um chamado que pode ocorrer a qualquer momento.

O sistema não atende quem chegar primeiro, mas sim quem estiver mais perto do evento, geograficamente falando, respeitando uma certa pirâmide de critérios para desempate, caso necessário.

Mas qual é este evento?

O Dr. B, podemos dizer, é tipo um marketplace de sobras de vacina para Covid (?!), que nasceu com a proposta de evitar o descarte de ampolas — um fato corriqueiro nos processos de vacinação em massa, onde existe um nível de incerteza sobre o volume de pessoas que serão atendidas, o que não otimiza o planejamento de demanda.

Mas como isso acontece?

As vacinas precisam ser refrigeradas para manter íntegras suas propriedades farmacêuticas, no entanto, quando se pretende aplicá-las é preciso iniciar um processo de degelo, até o ponto em que estejam adequadas para uso.

Portanto, ao conduzir processos coletivos de vacinação é preciso degelar a quantidade estimada para aquele dia, o que garante que todos serão vacinados, mas que também nos indica que é provável que sobrem algumas doses no final, pois sempre acontecem imprevistos que impedem algumas pessoas de se vacinarem.

Acontece também que vacina não é feijão, que você precisa colocar na água antes de fazer mas que quando pronto, se ninguém comer, você pode congelar.

A vacina não pode ser congelada novamente pois torna-se estéril, logo, em pandemia seria quase um crime humanitário desperdiçar ampolas nesse cenário de hecatombe sanitária.

É aqui que entra o Dr. B.

Caso algum ponto de vacinação perto de você tenha sobras, o sistema dispara alertas que o convocam imediatamente para tomar a vacina, sem que seja necessário você fazer parte do grupo que esteja sendo atendido naquele momento.

Esse sistema está em uso nos Estados Unidos, mas é fato que isso tem acontecido de forma clandestina mundo afora, inclusive aqui no Brasil.

Voltando ao início, raspas e restos, quando compreendidos em sua essência, podem ter seu uso maximizado e os desperdícios serão reduzidos.

Acontece com os restos de comida do meu irmão, com as baterias da Lime ou com vacinas da Covid.

É uma questão de dignidade lógica.

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Os dois casos citados nesse texto, da Lime e do Dr, B, estão nos links abaixo:

Hunting for a Leftover Vaccine? This Site Will Match You With a Clinic.

Lime’s old e-bike batteries are now powering these Bluetooth speakers

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Este texto foi originalmente publicado no dia 12/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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