Como será o amanhã?

É difícil prever, mas dá pra tentar entender o que aconteceu “ontem”, ou melhor, 70 anos atrás. Quem sabe não encontramos respostas?

A paisagem urbana é a evidência mais latente dos efeitos econômicos da pandemia. Os pequenos comércios passam por um momento critico, tentando sobreviver aos efeitos de algo que se prolonga para além das previsões mais pessimistas.

Isso tem me atormentado, pois estou dentro dessa economia e o negócio do qual faço parte experimenta um período de muitíssimo risco. Meu sono se vai um pouco a cada dia, sobretudo com gatilhos inesperados, por exemplo, quando um lugar do meu afeto desaparece.

Isso tem acontecido com maior frequência nos últimos dias. O fechamento da Casa de Francisca, uma casa de shows aqui de São Paulo, é um desses abalos que fazem sangrar sentimentos.

Dizem que morremos um pouco sempre quando se vão os nossos contemporâneos ou aqueles que fizeram parte de nossa história, por isso os efeitos da pandemia tem sido devastadores do ponto de vista psicológico.

Pra me aliviar, fui tentar buscar algum tipo de amparo. Fui estudar o que aconteceu com a economia após a segunda guerra mundial, um evento que durou 6 anos e deixou 75 milhões de mortos.

Tem uma expressão para esse período — postwar economic boom.

Contrariando as previsões pessimistas que indicavam uma forte recessão, sobretudo pelas altíssimas taxas de desemprego durante a guerra, o que se viu nas 3 décadas seguintes é chamado de “época de ouro do capitalismo”.

Houve um crescimento expressivo em quase todas as economias do mundo, com taxas de desemprego que estão entre as mais baixas da história.

Mas como e porque isso se deu?

Há uma série de explicações, algumas que se contradizem, no entanto certos pontos são convergentes:

1 — Durante a guerra, boa parte das empresas converteu suas linhas fabris para apoiar objetivos militares, deixando de fabricar bens de consumo.

2 — Soma-se a isso o fato de que as pessoas estavam limitadas de gastar suas economias, pois encontravam-se privadas da vida social.

3 — Ainda mais importante que os fatores acima, as pessoas mudaram drasticamente seus hábitos financeiros, acumulando poupanças para um momento que se previa de enorme dificuldade no futuro pós-guerra.

Esses 3 fatores combinados criaram uma situação econômica atípica, com os níveis de poupança atingindo picos históricos. Para que se tenha uma ideia, nos Estados Unidos esse indicador chegou a 24%, sendo que na década anterior era de apenas 3%.

*Ou seja, as pessoas estavam poupando 24% de tudo que recebiam*

Esse comportamento foi percebido, em maior ou menor dimensão, em quase todos os países envolvidos no conflito, o que criou uma situação de “bonança pós-guerra”, a medida que as pessoas voltavam a vida normal e passavam a exercer seus desejos de consumo que estavam reprimidos.

Ato contínuo, depois que analisei esses dados, fui pesquisar os níveis de poupança atuais e a situação é muito similar {ver link}.

As taxas de poupança mais que duplicaram em 2020, como se percebe nesse gráfico que mostra o comportamento na “zona do euro”.

São dados que, uma vez expostos, soam óbvios, mas que não paramos para analisar no dia-a-dia.

É normal e não é esperado que, no desespero, nos dediquemos a esse tipo de análise, pois estamos muito ocupados com as dores do presente.

De toda forma, é previsível que essa taxa de poupança, por motivos forçados, vá se reverter em uma recuperação econômica expressiva no momento pós-covid, pois as pessoas reinvestirão esse excedentes.

Esses fenômenos são descritos na economia como recuperação em V ou W, onde quedas bruscas são compensadas por movimentos de subida igualmente fortes.

Não quero dizer, com essa análise, que teremos uma nova época de ouro.

Não é esse o ponto — O mundo é outro, os arranjos também, e, talvez, o medo que estamos sentindo tenha efeitos psicológicos mais duradouros, o que pode acentuar a preocupação em reter poupança por mais tempo.

A lógica aqui, acima de tudo, é tentar compreender quais são as possibilidades, tendo sempre um olhar que conjuga aprendizado histórico, conjuntura atual e perspectiva futura.

Por ora, para tentar controlar os ânimos, é o que podemos fazer.

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Este texto foi originalmente publicado no dia 25/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

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