Agilidade é sobre processo e intenção

Todos estamos tomando decisões difíceis e não há superlativos que dêem conta. Acho, inclusive, que não precisamos mais deles — dos superlativos.

Afinal, do que adiantam?

Ao fim e na essência, são decisões, e compará-las por seu tamanho ou complexidade é perda de tempo, pois seus impactos são sentidos de formas diferentes.

Importam mais o processo de tomada de decisão, a transparência, o “timing” e os aspectos morais.

James Comey foi diretor do FBI nos últimos anos da gestão Obama e esteve no centro do evento que explica bastante do mundo que vivemos hoje.

Estamos em 2016 e Donald Trump e Hillary Clinton disputam a presidência.

Menos de 6 meses antes das eleições, descobre-se que os russos “hackearam” os comitês eleitorais, tanto de republicanos quanto de democratas, e estão de posse de documentação sensível sobre os interesses políticos americanos.

Nos bastidores da diplomacia política especulava-se sobre os limites da chantagem russa e do impacto disso no resultado das eleições.

Àquela época era conhecido por todos que as sanções econômicas impostas pelo governo Obama às relações bilaterais com a Rússia criaram tensões parecidas com os tempos da guerra fria, com os dois países se posicionando em lados contrários em questões nucleares, militares, comerciais e de segurança.

Era sabido, portanto, que os russos não desejavam que Hillary vencesse a eleição, portanto, fariam o possível para influenciar no processo eleitoral.

Eis que descobre-se um escorregão inaceitável da candidata democrata.

Hillary, quando Secretária de Estado do governo Obama, cometeu a imperícia de usar contas pessoais de email, armazenadas em servidores comerciais, o que contraria os protocolos básicos de segurança nacional aplicados a políticos e governantes.

Um erro básico, primário, que colocou enorme suspeição sobre o que poderia ter motivado esse descuido.

Hillary estaria envolvida com alguma irregularidade? Sua atitude colocou em risco a segurança nacional? Os emails hackeados pelos russos expunham segredos ou inconformidades? Ou foi apenas uma infração de compliance?

Caberia ao FBI — um órgão independente, apolítico e cujo cliente direto é o povo americano — investigar.

Acontece que o vazamento cobria um período de tempo enorme e as eleições aconteceriam dali a poucos meses, o que demandaria um força-tarefa investigativa sem precedentes, pois seria inconcebível dar sequencia a um processo eleitoral sem que o povo americano soubesse a verdade e a dimensão desse problema.

Hillary liderava as pesquisas com folga e todos sabiam que apenas um acidente lhe tiraria a presidência, razão pela qual bastou a “possibilidade de um acidente” para que Trump incendiasse a campanha com alegações sobre a moralidade da candidata democrata.

O FBI corria contra o tempo e não havia nada que indicasse algo mais sério nas investigações. Tirante o descuido, Hillary não havia cometido improbidade de qualquer natureza.

Foi então que James Comey veio a publico e deu por encerrado as investigações.

Fim, certo? Hillary campeã? Não, claro que não. Você sabe o final da história.

Semanas depois de encerrar as investigações, o FBI descobriu mais 350 mil mensagens que não haviam sido analisadas e que faziam parte de um período perdido, descoberto numa investigação paralela nos computadores da assessora de Hillary.

Faltavam 3 semanas para as eleições.

Em paralelo, o FBI tinha fortes indícios de que os russos estavam apoiando Trump, em uma complexa rede de laços financeiros e troca de favores, os quais envolviam forte influência no processo eleitoral.

O FBI se viu numa sinuca de bico.

Reabrir a investigação contra Hillary, mesmo sendo o certo, equivaleria a “dar a vitória a Trump”.

Internamente, James Comey sofria pressões brutais para não tocar mais no assunto, pois “fazer o certo” seria a mesma coisa que “favorecer os russos”, cujas investigações — ainda em curso e, portanto, sigilosas — apontavam que eles haviam influenciado diretamente no processo eleitoral ao criar uma rede inescrupulosa de apoio a Trump.

O momento dessa decisão é tido como um dos pontos mais importantes da história política recente, pois a vitória de Trump reverberou no mundo todo, inclusive nas eleições brasileiras.

James Comey decidiu por reabrir a investigação e esta é a tônica da série “The Comey Rule”, naquilo que foi considerado fator decisivo para a vitória do candidato republicano nas eleições de 2016.

É uma produção de 4 episódios, disponíveis na Paramount, que nos permitem presenciar os bastidores do FBI, seus métodos de operação, a separação clara de papéis e responsabilidades, as cerimônias e os artefatos usados no dia-a-dia da investigação, a definição de objetivos e a forma como o backlog de decisões foi gerenciado.

Não há dúvidas de que o FBI pratica “frameworks agéis”.

Veja você mesmo.

Mas isso não quer dizer que eles, os frameworks, dêem conta, por si, da complexidade que é tomar decisões.

A mentalidade ágil envolve processo e intenção.

No caso do FBI, é um espetáculo assistir o processo, sobretudo a capacidade de reação a imprevistos e a velocidade de adaptação.

Mas e quanto a intenção?

Os interesses dos clientes estavam em primeiro lugar?

Veja você mesmo. E tire suas próprias conclusões.

Minha opinião?

Eu concordo com a decisão de James Comey, mesmo com o resultado indireto que ela provocou, mas também o defenderia se ele tivesse feito o contrário.

Contraditório?

Quem disse que não sou (somos)?

Os argumentos de James Comey para reabrir a investigação podem ser vistos no vídeo que encaminhei no grupo do m/daily, no whatsapp, e são de um trecho retirado do segundo episódio da série “The Comey Rule”.

∎∎∎

Este texto foi originalmente publicado no dia 23/03/2021 no M/Daily, nossa newsletter via WhatsApp, onde você recebe materiais e curadorias sobre metodologias ágeis, negócios e transformação digital. Acesse no link abaixo.

https://materiais.mastertech.com.br/mdaily-20202

Deixe uma resposta