Sua mochila está aberta…

Gentilezas sempre serão apreciadas.

Ouse sair às ruas com sua mochila aberta, com o cadarço desamarrado ou com a porta do carro levemente destravada.

Essas pequenas situações, onde estamos involuntariamente desprotegidos, atrai um comportamento de civilidade quase que imediato.

Pessoas correm, fazem mímicas, suspendem seus cafés e interrompem suas reflexões simplesmente para avisá-lo de um perigo iminente.

“Irmão, irmã, tá aberto, fica de olho…”

A mochila aberta e outras distrações miúdas despertam um instinto primitivo, algo na linha de proteção do bando.

De repente, somos todos animais que se protegem e se vigiam.

Somos do mesmo time.

Lindo, não?

Mas é apenas uma convenção social que resiste pelo poder da inércia.

No cotidiano, a gente não vai muito além de mochilas e cadarços.

É pouco provável que alguém te avise, generosamente, que você está gastando mais do que ganha, que deveria pensar seriamente em se reciclar profissionalmente, que sua dieta parece a de uma criança de 5 anos ou que seria muito importante você considerar novas frentes de estudos, em virtude da dinâmica social e econômica dos tempos atuais.

Pouco provável também que alguém te diga que seu comportamento profissional não está legal, que você está pouco se fodendo se outras pessoas dependem de você no ambiente de trabalho, que sua noção de liberdade está prejudicando a fluidez da liberdade alheia, que você vive atrasando entregas, pois já sacou quais desculpas são mais eficientes.

Pouco provável que tenhamos, nesses casos, a mesma atitude de avisar sobre a porta do carro estar levemente destrancada, o que pode levar alguém a quebrar o pescoço na próxima curva.

Não suportaríamos a ideia de ser cúmplices de uma quebra de pescoço, de um assalto, de uma exposição constrangedora de genitálias.

Mas, na vida social, familiar e profissional, pescoços não se quebram explicitamente. Eles são levemente e continuamente torcidos, até o lento e derradeiro sufocar.

Assaltos também não acontecem à luz do dia, à mão armada, nas empresas e residências desse país. Eles são construídos em pequenas subtrações imperceptíveis e ganham outros nomes pomposos, como ineficiência, negligência ou acaso.

Te incomoda a noção disso ser equiparado a assalto?

Se for consciente, não deixa de ser. É consciente?

Por fim, genitálias não são escancaradas de forma vexatória em mesas de jantar ou mesas de reunião.

Empresas, famílias e relações são levemente despidas ao longo de uma linha de tempo longa, até que a nudez, quando consumada, já nem constrange mais.

O que precisamos fazer para alertar sobre outras mochilas abertas, na vida em geral?

O que falta?

Gastamos muito tempo nos comovendo com crimes hediondos, com corrupções grandiosas, com quedas de avião, com enchentes, com a hipótese de pessoas serem assaltadas ou morrerem.

Isso é bem importante, (claro que é !!!), pois se perdermos isso, pode ser que outras coisas já não sejam recuperáveis no tecido social.

Mas é preciso ir além da indignação midiática e seletiva.

O tecido social, hoje, se costura em linhas mais finas e invisíveis, numa conexão de compartilhamentos cada vez mais complexos.

Nesse contexto, ou a gente começa a fechar outras mochilas, ou nos veremos num processo irreversível de enfraquecimento de elos.

O que sustenta rede é força das suas costuras, e o que fortalece essas pequenas linhas é a nossa capacidade de se auto controlar.

Na dinâmica de hoje, esperar que um líder seja capaz de fazer isso sozinho é uma enorme inocência.

E , convenhamos, ninguém é inocente.

Todos percebemos quando vemos algum cadarço desamarrado, minutos antes de uma queda.

Sua mochila está aberta…
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