Rolling Estônia — Transformação digital sem atalhos

texto inspirado em artigo da revista New Yorker, do dia 24 de março de 2020.

Ah, mas a Estônia é minúscula, não dá pra comparar com um país de dimensões continentais como o Brasil.

Ok. Tem razão. Mas com essa diferença escancarada, ao invés de tentar enxergar tudo como uma receita pronta, que tal ouvir essa história como inspiração?

Localizado na península báltica, a Estônia é um país de laços estreitos e históricos com finlandeses, suecos e russos.

Dos finlandeses, uma herança de estoicismo, de referência cultural, de desenvolvimento científico como pilar social.

De suecos e russos, laços repressivos desatados recentemente, há menos de 3 décadas, que é o tempo de independência desse país que fez parte da antiga União Soviética desde 1940 até a queda do regime comunista em 1991.

Feitas as ressalvas e apresentações históricas, o que essa pequena nação tem de especial?

Absolutamente nada.

É um país óbvio.

Vamos listar algumas de suas obviedades.

Os estonianos valorizam sua história, entendem como é viver em constante restrição, sabem o custo do atraso e do desperdício e aprenderam a formular hipóteses e soluções de problemas usando de forte carga imaginativa.

Forjaram esse aspecto de suas personalidades em anos de domínio repressivo soviético, quando as informações que tinham sobre o mundo vinham de uma igualmente estóica Finlândia, através das ondas de TV. Ou seja, é sempre possível escolher como se informar, mesmo em momentos excepcionais, mesmo com adversidades.

Ainda na década de 90, um dos primeiros presidentes da fase independente lançou as bases do processo de digitalização do país, o que resultou, 30 anos depois, no título de nação startup.

Toomas Hendrik Ilves era jornalista e psicólogo e havia aprendido a programar nos Estados Unidos, de onde voltou e instituiu a obrigatoriedade de aulas de pensamento computacional, além de criar centros públicos de acesso a Internet.

Hoje parece óbvio, mas naquele tempo poderia soar como um equívoco nas prioridades públicas.

O que se vê nesse processo, então?

Dos tempos nos Estados Unidos, o intercâmbio de experiências e a validação empírica de uma tese de desenvolvimento econômico apoiada na visão de um futuro digital.

De aspectos mais óbvios, a importância de um líder que reconhece e pratica o autodesenvolvimento, que tem apreço pela ciência, que pensa a longo prazo.

O que aconteceu com a Estônia, que hoje é tido como um dos países mais digitais e menos burocráticos do mundo, não pode ser estudado pelas consequências. Seria um equívoco. Um atentado ao “pensamento crítico”.

Não se trata de equipar o país inteiro com banda larga ou de baixar decreto para aulas de pensamento computacional na base curricular.

Fazer isso hoje é obrigação e não há opção, uma vez que economia e costumes tornam inviável um ambiente se manter competitivo sem essas obviedades modernas, por mais que alguns ainda insistam na retórica do discurso de inovação.

Chegamos e outros tantos chegaram atrasados. Décadas atrasados.

O que se deve ressaltar no caso da Estônia, e que pode ser aplicado na sua empresa, no seu processo de transformação digital ou de implantação de cultura ágil é o seguinte — Não existem atalhos.

Paga-se um preço, ao qual chamamos de investimento, quando criamos bases de culturas que serão fortalecidas ao longo de uma sucessão de períodos, mas que na sua essência vão ser os pilares de desenvolvimento de qualquer organismo.

Quer remediar? Quer esperar pra ver?

Não tem problema, paga-se um preço por isso também, mas a isso não se dá nome de investimento.

A isso de dá nome de “reposição de depreciação”. Esse é o termo técnico contábil. Um palavrão, sem dúvidas.

Essa é a diferença entre investir e repor perdas.

Quando você ler o caso da Estônia, e você pode fazer isso nesse artigo da revista New Yorker, raciocine pela lente dos construtores, dos imaginadores, dos que sabem que o caminho mais sólido para processos de transformação envolve planejamento e resiliência.

Se você não tem apetite para o futuro, tudo bem, continue na sua aposta de curto prazo.

Pode dar certo, afinal é uma aposta.

Mas quem disse que é apenas sobre resultados?

Trata-se sim, de aumentar a chance dos bons resultados.

Quando se tratam de negócios, de jogos, de vida, de saúde, a gente não consegue controlar tudo, mas se a gente conhece um pouco de estatística e de probabilidades, sabemos também que as maiores chances acompanham os mais preparados, os mais diligentes, os mais pacientes.

No mercado e na vida, até para se arriscar tem método.

Questionamos e debatemos os métodos, quando existem, mas a ausência de um plano é indiscutível

Se você pretende trabalhar em uma cultura ágil, não leia o caso da Estônia com os olhos da consequência.

Leia com os da causa.

Assim, quando o mercado andar, suas pedras também vão rolar, como rolam os estonianos, sempre na fluidez do mercado, reagindo a pandemia com a rapidez de uma startup, executando um hackathon público dois dias após o país entrar em quarentena.

Ágeis?

A resposta não é binária. Uma boa história é a base de um bom backlog, que é a base de um bom desenvolvimento, que é a base da melhoria contínua.

Digitais?

A resposta também não é binária. No entanto, apenas dois dias depois. Um hackathon público. Com todo o país. Conduzido pelo governo.

Decida você. Prefiro entender que eles são, diríamos, intencionais!

A ampliação de repertório é uma das das coisas mais importantes para nós. Acreditamos na capacidade de promover conexões e traçar paralelos em diversos contextos. O mais importante é mudar a lente buscar novos enquadramentos. Essa é a base de qualquer transformação, ainda mais quando falamos de digital.

Conheça o curso remoto de Transformação Digital da Mastertech. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

Deixe uma resposta