Interpretação de textos e vieses cognitivos

Existe um impulso por julgamento que se manifesta em quase todas as situações.

As opiniões e respostas são disparadas sem que exista tempo hábil para criar uma opinião sólida e construtiva.

Por vezes, a leitura é seletiva e descontextualizada.

É uma época de desprezo aos fatos, de culto aos extremos, de depreciação da história.

Perdeu-se a nuance, perdeu-se o espaço onde nascem as alianças.

É o tempo do querer acreditar nos fatos, desde que os fatos sejam reforços das minhas crenças.

Nesse contexto, a leitura, esse ato solitário e reflexivo, não encontra espaço numa sociedade ruidosa onde se confunde barulho com informação.

E sem leitura, não há interpretação.

O que há é um vazio preenchido por insensatez e insensibilidade.

O que vimos, nesses parágrafos iniciais, é a síntese de um processo que expõe a necessidade de sociabilidade (ser aceito e participar) a qualquer custo, mesmo que este seja pago em notas de intransigência.

Lê-se uma coisa e responde-se outra, em um desvirtuamiento contínuo do debate.

Pega-se um dado situacional e cria-se uma generalização.

Analisa-se um contexto histórico por uma fresta de dados mal colhidos e mal nutridos.

É, pois, com tudo isso, um momento de aprimorar a capacidade de leitura.

Nunca foi tão urgente e necessário.

Temos pandemias ocorrendo. Sim. No plural.

Mas se boa parte da população refuta até a mais óbvia, o que dizer daquelas que são sutis, enraizadas e endêmicas?

Avancemos pelo básico.

É deselegante intelectualmente o desprezo pelas letras.

A comunicação, esse bem precioso, se faz na construção lógica, analítica e emocional de textos e discursos, e na noção empática de servir como ponte para o conceito de civilidade, de se fazer compreender pela essência e pelas virtudes.

Levamos milênios para construir códigos de relacionamento social, inventamos a filosofia, as ciências, a economia, a sociologia e antropologia.

Criamos o conceito de semiótica para que fosse possível compreender os códigos, suas origens e seus significados.

Mas algo está dando errado.

Andamos tudo isso para chegar em uma época onde textos não precisam de contextos e onde as teses são apenas sínteses que não aceitam antiteses.

Fizemos tudo isso para chegar numa época onde a semiótica é tão somente um artefato arqueológico, fruto de um tempo onde a expedição pelo conhecimento exercia fascínio e não era fruto de escárnio.

Estamos, pouco a pouco, tomando o youtube e o instagram como escolas, desvirtuando, numa tacada só, tanto o conceito de escola quanto o conceito de ferramenta.

Estamos “desbussolados”, mesmo com todos os mapas nas mãos.

Nutrimos uma falsa sensação de profundidade explicativa, de pseudoconhecimento, pura e simplesmente porque algo está escrito e gravado, sem que importem as fontes, as origens, sem que importe se é verdade ou não, sem que importe se, mesmo que ainda não seja verdade, seja tratado como hipótese.

Nossas pinturas rupestres são falsas, nossas cavernas estão escuras, mesmo depois de inventarmos as luzes.

A hipótese morreu. Não existe mais suposição.

Acabamos, inclusive, com a ignorância.

A ignorância, essa vastidão de possibilidades, essa janela para o novo, foi confundida, tida e havida como burrice.

O desconhecer foi elevado a anomalia quando deveria despertar curiosidade.

A ignorância nos deu o desejo de navegar e de ir à lua, mas hoje é mais fácil tripular o espaço do que achar um ignorante, afinal, somos todos sábios nessa terra onde os dedos agem mais rápido que o córtex pré-frontal.

Por isso tudo, nunca foi tão urgente, (re)aprender a ler.

Uma sociedade que se respeite, precisa ler mais, estudar mais, se permitir ignorância como força motriz de curiosidade e busca pelo conhecimento.

É preciso respirar e refletir, ler o que está escrito, ouvir o que está sendo dito, recuperar o sentido da comunicação, respeitar os códigos e linguagens.

É preciso fazer isso em todo micro momento, em toda micro interação, em toda parte ínfima, até que as células se reconstruam.

Ao fazer isso, nossos vieses podem até não ser domados, mas serão compreendidos, respeitados e servirão para expor a nossa fragilidade cognitiva em domar o entendimento de todas as coisas.

Somos todos falíveis, moral e eticamente, naquilo que chamamos de efeitos das construções sociais, mas também somos imensamente falíveis nas ilusões de conhecimento que nutrimos para sermos aceitos nesta mesma sociedade.

Esse texto expõe, em suas frases e na conexão entre elas, um conjunto de vieses cognitivos e falácias.

A cada um deles se dá um nome específico — viés de confirmação, viés de disponibilidade, ilusão de profundidade explicativa, falácias das mais diversas e assim por diante.

Mas a coisa é mais profunda.

Não se trata de expor um conceito e dar um nome.

Isso não está resolvendo.

Chamar uma coisa de fake news não está resolvendo.

Antes de avançarmos um passo nessa conversa, antes de criarmos uma sofisticação acadêmica, é preciso recuperar o prazer pela leitura, pela escrita e pela comunicação.

Quando atingirmos esse estágio, aí sim podemos ser mais específicos e nominais.

O caminho para valorizarmos, entendermos e aceitarmos a ciência, passa por recuperarmos a essência dos pilares da civilidade.

Pratiquem leitura. Ouçam mais.

Interpretação não é dissimulação ou manipulação.

Interpretar é se doar a ideia do outro.

Com (boa) intenção.

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