A urgência e a procrastinação

A urgência como estilo é feia e deselegante.

É também um disfarce.

É sintomático dos tempos.

Hoje importa correr ou fingir que corre, sem mesmo saber do que e tampouco pra onde estamos correndo.

Suponha o seguinte:

Que você ganhe duas horas extras no seu dia, daqui para a eternidade.

Sim, no seu mundo, mas só no seu, seus dias terão 26 horas.

E aí, faz o quê?

Você vai fritar sua cabeça com a pergunta, vai dar uma resposta escapista pra se sentir bem, pra fingir que tá no controle, mas, na verdade, é assustador ter mais tempo quando, na maior parte dele, a gente vive preenchendo os espaços de insignificâncias.

Quanto do seu tempo você reserva para o nada, para o ócio, para o horizonte, para mergulhos mentais?

Parar pra pensar hoje em dia é quase um crime, uma heresia, um atestado de incompatibilidade com a sociedade digital.

Quase uma sociopatia.

Mas se tudo é corrida, se preenchemos uma hipótese adicional de tempo com mais coisas pra fazer, se não paramos pra pensar, do que estamos fugindo realmente?

Não, não é aqui que o texto tem um “plot twist” e abraça o maniqueísmo da autoajuda.

Sem esse papo.

O lance é que vivemos no nosso mundo de pequenas urgências procrastinadoras.

Quê?

Como? Contraditório isso, não?

Contraditório nada.

Vivemos infestando o mundo de mensagens pouco assertivas, de reuniões infrutíferas, de atrasos não justificados.

Tudo é urgente, mas ao mesmo tempo, na maior parte do tempo, a gente só está tentando consumir essa adrenalina que é liberada na urgência.

Tipo uma droga mesmo.

Quantas reuniões com golfinhos você fez esse ano? Sabe aquela pessoa que fica no celular o tempo todo, olhando pra baixo, e de repente levanta a cabeça e fala uma besteira nada a ver, apenas pra mostrar interesse e ganhar tempo?

Como um golfinho, manja? Fica embaixo d’água o tempo todo e só sai pra fazer uma graça.

É ou não é sintomático?

Que urgências são essas que não permitem 10, 15, 20 minutos de concentração?

Que compromissos urgentes são esses, embutidos em reuniões que sempre atrasam pra começar?

Vivemos assim, disfarçando urgência de procrastinação.

Uma década atrás, se você queria marcar um encontro, uma cerveja, qualquer evento social, as pessoas se ligavam, combinavam dia e horário, e pronto!

Bastava.

Hoje, qualquer chopinho leva umas trinta ou quarenta mensagens para “ficar pronto”.

Estamos perdendo a capacidade de sermos diretos e assertivos, pois sabemos que sempre vamos ter espaço para mais uma mensagem, para mais um email, para mais uma mudança de última hora.

Nunca tivemos uma riqueza de tantas ferramentas disponíveis para comunicação.

E nunca nos comunicamos de forma tão pobre.

Culpa da tecnologia?

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