Você é “free-range”?

Morgan Spurlok é um polemista. E muito talentoso.

Ele é da escola de Michael Moore, outro documentarista que criou um estilo voltado às leituras inteligentes, críticas e ácidas sobre as indústrias mais emblemáticas da economia.

Moore já tratou sobre a indústria de armas em Tiros em Columbine, onde traça um panorama da paranóia coletiva dos americanos por armas e das consequências nefastas no comportamento dos jovens que, ansiosos, depressivos e estimulados pela banalização da violência, utilizam-se dessa facilidade para perpetrar atos de ódio em carnificinas que chocam e pedem reflexão.

Moore, que é mais irascível e contundente, já levantou outras bandeiras, entre elas uma crítica feroz a máquina de guerra americana, em Fahreneit 9/11, e contra o sistema de saúde, em Sicko.

Seus documentários tangenciam o ativismo e, por vezes, se confundem e podem confundir por não deixar claro os limites do que é documentar e do que é panfletar.

Já Spurlock vai para uma linha mais irônica e bem humorada, fazendo do riso e do deboche um recurso eficiente para descortinar cinismos e hipocrisias da indústria de fast-food.

Spurlock é mestre na arte de enquadrar problemas e o faz sem forçar a barra, usando dos discursos e estratégias de marketing das grandes redes para construir sua própria narrativa.

Ele usa a força do outro como alavanca de seu discurso e faz isso com muito habilidade.

Sua estratégia é a de de comunicação não-violenta, se apoiando na disponibilidade de informações, sem fazer malabarismo retórico para provar suas hipóteses.

Se o mercado aceita e compra certos discursos, cabe a Spurlock fazer o papel da persona que em tudo crê e que tudo compra.

Spurlock sabe enquadrar situações, comunica-se com assertividade e pratica a escuta ativa, para só então construir uma narrativa empática, como se fosse ele mesmo um dos espectadores de seus documentários.

Spurlock é empírico e se baseia em fatos. É assim que ele valida hipóteses.

No seu primeiro documentário, mais de uma década atrás, ele expôs, num só movimento, tanto a hipocrisia do marketing da indústria de fast-food quando os efeitos nocivos de uma cultura de alimentação baseada na pressa e na pobreza nutricional, com consequências alarmantes em saúde.

Super Size Me virou um ícone cult dos documentários de guerrilha.

O sucesso fez de Spurlock uma ‘persona non grata’ no meio, tanto que ele demorou 10 anos para ressurgir vestido em seus melhores trajes, sendo irônico de um jeito delicioso.

A volta se deu em “Super Size Me 2- Holy Chicken”, disponível na Amazon Prime.

A história é a seguinte.

Numa sacada genial, numa estratégia de cavalo de troia, Spurlock ressurge como um empreendedor dos novos tempos, disposto, ele mesmo, em montar sua própria rede de fast-food (?!).

O que se vê a partir desse ponto é uma sucessão de aulas.

Aula #1 — Modelagem de negócios

Ele faz a lição de casa. Levanta dados de mercado, faz análise de tendências e decide ir pro lado mais promissor, aquele que indica uma guinada nos hábitos alimentares, uma busca por opções mais saudáveis, socialmente responsáveis, ecologicamente adequadas e politicamente corretas.

Spurlock pega todo esse caldo cultural e de costumes e coloca no centro da sua ideia, como força motriz de sua proposta de valor.

Ao fazer isso, sua dose de humor e ironia, nos desnuda por completo, expondo, inclusive, a nossa ignorância e hipocrisia.

Aula #2 — Design Thinking.

Com a ideia desenhada e estruturada, ele procura por especialistas para dar o próximo passo.

Faz pesquisas de campo, consome o produto da concorrência, identifica os padrões de sucesso, compreende como pensam os consumidores e, a partir disso, começa a desenhar o conceito de sua própria marca.

Ele vai empilhando todos os clichês do mercado e todos os vieses cognitivos que moldam a relação de consumo.

Se a demanda é por frescor, nutrição e saúde, basta dar o que as pessoas querem.

A questão é que isso é dado no campo do marketing, do ilusionismo e da projeção. Por trás, nas engrenagens da indústria, na estratégia e na construção do produto, as coisas continuam exatamente as mesmas.

Se é uma nova embalagem que o mercado quer, apenas para satisfação de sua consciência, então que degustem essa torrente de rótulos — orgânico, artesanal, saudável, natural, free-range e sem hormônios.

É uma dança entre quem engana e quem quer ser enganado.

Casa perfeitamente.

É design thinking, com cliente no centro, com experiência do usuário.

Tudo “by the book”. E funciona.

Mas é moral e ético?

Vamos ao próximo tópico da aula de Spurlock.

Aula #3 — Entendimento de Mercado.

Para ter uma rede de fast food que vende sanduíches de frango, ele entende que deve cultivar suas próprias galinhas e ter seu próprio criadouro.

Seria hilário, não fosse trágico e triste.

Ele mergulha fundo em um mercado dominado por 5 grandes empresas, que controlam 99% do mercado de galinhas e frangos nos Estados Unidos.

Essas empresas, por sua vez, controlam uma rede de pequenos produtores e de granjeiros que se submetem às suas regras draconianas para continuar no mercado.

São produtores que trabalham todos os dias da semana, que investem em melhorias contínuas em suas plantas de trabalho e que competem por remunerações cada vez mais decrescentes, baseadas em uma competição escrita sob o auspício da meritocracia, premiando produtividade e qualidade, mas sem oferecer as mesmas condições para todos os participantes.

Essa parte é de fazer corar até o mais convicto defensor do livre mercado.

É um mundo cão, o dos frangos.

A medida que sua idéia avança, Spurlock tenta entender como adotar os rótulos da moda.

As pessoas gostam de galinhas criadas “free-range”?

Pois bem, ele liga para o órgão de regulação responsável e tenta compreender como pode fazer jus a essa distinção.

Se você soubesse o que basta para ser considerado “free-range” ficaria constrangido de pagar o adicional por essa farsa.

Não vou me alongar aqui, mas o mesmo se aplica para orgânico, natural e etc.

Basta uma manipulação das regras, usando as próprias regras, para que você seja um carrasco do mundo animal com os rótulos de uma guardião da natureza e da ecologia.

Por fim, vamos sair da vibe ruim e vamos voltar ao processo de criação de um negócio

Aula #4 — O MVP.

Com tudo pronto, faltava encontrar um bom ponto e boas instalações, num mercado reconhecido por ser o berço de todos os novos lançamentos.

Spurlock aluga um espaço que antes pertencia a rede Arbys, recruta uma equipe de ex-funcionários de redes de fast-food, expõe as agruras de trabalho e remuneração hostis praticadas pela indústria, com estratégias de cartel, e, por fim, monta seu primeiro experimento.

O resultado é um sucesso estrondoso, com uma loja que é o mais perfeito espelho social, com todo o cinismo, vilania e dissimulação sendo oferecidos como produto para aqueles que perderam a capacidade de julgar para além das aparências e das conveniências.

Se o que queremos é apenas o aparente conforto de participar de um jogo correto, ético e moral, a indústria faz isso pela gente.

E embala direitinho.

Você só não percebe se não quiser.

E você (~força de expressão e recurso narrativo de generalização forçada~), na maior parte do tempo, não quer mesmo.

Sigamos assim, vivendo na época do “free-range”.

Mais amordaçados do que nunca.

Certo, Spurlock?

Class dismissed!

A ampliação de repertório é uma das das coisas mais importantes para nós. Acreditamos na capacidade de promover conexões e traçar paralelos em diversos contextos, inclusive nos filmes. O mais importante é mudar a lente buscar novos enquadramentos.

Os cursos abertos da Mastertech também têm essa função. Visite o nosso site e veja as próximas datas!

Deixe uma resposta