Qual o valor da faculdade?

É uma história secular.

Há quase 400 anos chegava ao Estados Unidos o conceito de universidade da forma como conhecemos hoje.

A criação de Harvard foi a reprodução de um sistema que já existia em Cambridge, na Inglaterra, e ambas se aproximavam dos ideais da igreja, com o formato de aulas reproduzindo verdadeiros sermões, não muito diferente do que ainda acontece nos dias atuais.

O ensino superior nos Estados Unidos é assunto de debate que corta os séculos e está enraizado na cultura como um dos elementos indispensáveis para o desenvolvimento do pensamento crítico, um valor que moldou a América e seu estilo de vida.

Com o surgimento de Harvard estabeleceram-se praticamente todos os conceitos que hoje caracterizam uma instituição de ensino superior, desde a forma como os cursos são organizados, seus currículos, o formato dos campus com sua perspectiva de reproduzir a vida social e comunitária, até a questão que está no centro do debate nos dias de hoje — a democratização no acesso ao ensino superior.

Harvard é o molde sob o qual todas as demais foram esculpidas.

Ao longo da história americana, por intermédio de leis e movimentos sociais, perdurou o ideal de ensino superior gratuito em larga escala para todos que não pudessem acessar as instituições privadas.

Isso foi possível pela criação de universidades públicas em todos os estados, sustentando por uma estrutura de colégios comunitários e faculdades.

Mas isso foi no princípio.

O que se vê hoje é o ensino superior como um negócio qualquer, altamente mercantilizado, dissociado dos princípios norteadores que o fez ser um dos grandes alicerces intelectuais americanos.

Os últimos 30 anos apresentam um modelo paradoxal, com supervalorização nos preços das mensalidades e questionamento crescente sobre o benefício de se fazer ensino superior.

Na corrida por alunos, as escolas se transformaram em verdadeiros resorts de luxos, com uma oferta de mimos, caprichos e distrações que em nada se assemelham ao que se espera de um organismo educacional.

É a ‘siliconização’ das universidades, que mais parecem startups unicórnios no tanto que mimetizam sua cultura de hedonismo e liberdade.

Todo esse pacote de bondades das universidades foi construído a base de endividamento constante e progressivo e, naturalmente, isso elevou o preço das mensalidades a valores exorbitantes, num crescimento desenfreado, muito maior do que qualquer outro bem e serviço nas últimas três décadas.

O resultado é uma das maiores dívidas da história americana, uma bolha até maior que a das hipotecas que causou a estrondosa crise financeira de 2008, e da qual ainda não estamos totalmente recuperados até hoje.

O valor ultrapassou mais de um trilhão de dólares em dívidas de crédito estudantil, com muitos jovens condenados a pagar pelo resto da vida uma conta que se multiplica pelo efeito do tempo e dos juros.

Em média, um aluno sai da faculdade com dívidas de 25 mil dólares, mas o que antes, ao menos, era garantia de pleno emprego, mudou muito nos anos recentes.

Com a massificação da oferta, houve perda crescente de qualidade, o que tem elevado o debate sobre as reais vantagens de se pagar caro por um ensino superior de qualidade duvidosa e com alunos cada vez mais distraídos pelo espírito recreativo ao qual foram seduzidos.

O resultado é o aumento de desemprego, inclusive entre formados que, não raro, passam a competir por empregos muito distantes dos sonhados.

Todo esse cenário é o pano de fundo do documentário “The Ivory Tower: A Torre de Marfim”, que repassa o sistema de ensino superior com um olhar menos idealizado e muito mais realista. Está disponível na Amazon Prime.

Há, claro, espaço para a influência da transformação digital, sobretudo a hipótese de poder multiplicar um ensino de qualidade para todos os cantos do planeta, sem a necessidade de ter mais professores ou prédios.

Bom, era essa a expectativa de Udacity e Coursera, ambas nascidas dentro de Stanford, sob a premissa questionável de massificar a educação online como resposta ao desnivelamento na qualidade das ofertas.

Sob esse prisma, um professor rockstar poderia atingir milhões de alunos simultaneamente, o que representaria o supra sumo da equação custo-benefício.

Como vemos no documentário, as experiências nessa linha, de tentar uma abordagem híbrida, foram catastróficas, pois desconsideravam o efeito e o poder das relações humanas na construção da experiência de aprendizado.

Porém, existem os exemplos que renovam esperança sobre uma readequação na forma de praticar ensino, seja ele superior ou não, mas evidentemente conectado com os tempos e com o entorno da sociedade.

Vejam o exemplo de Deep Springs, uma faculdade meio agrícola, meio hippie, no interior da Califórnia, onde os alunos são os mantenedores do espaço e também são autônomos em todo o processo de organização e decisão da vida acadêmica.

Ou o caso do Spelman College, uma universidade para mulheres, predominante ocupada por afro-americanas, que funciona como um oásis em meio a um sistema que ainda é altamente discriminatório.

Para aqueles que questionam a efetividade do ensino superior, a iniciativa “Hack Your Education”, patrocinada pelo fundador do Paypal, oferece incentivos para alunos abandonarem a faculdade e se tornarem empreendedores precoces, com aprendizado real e aplicável, longe das estruturas obsolescentes das universidades tradicionais.

“The Ivory Tower” é indispensável para todos que gostam de educação e se interessam pelos rumos cada vez mais incertos sobre os arranjos eficientes para equalizar uma sociedade onde o pensamento crítico nunca foi tão necessário.

Nisso, não mudamos nada desde que Harvard ou Cambridge foram fundadas, há algumas centenas de anos.

E essa é a notícia boa.

Pensamento crítico é a fundação.

Resta saber qual o melhor modelo para que essa conquista, que se pretende universal, não seja exclusividade dos que podem pagar centenas de milhares de dólares por um diploma.

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