Mastertape #5: O som do tempo e do dinheiro

Foi o álbum que ficou mais tempo no topo das paradas — quase 20 anos.

Inacreditável.

O disco é de 1972 e a banda tentava achar novos rumos criativos, ainda se restabelecendo da saída de Syd Barret, fundador e alma criativa da banda.

Inacreditável.

O disco é de 1972 e a banda tentava achar novos rumos criativos, ainda se restabelecendo da saída de Syd Barret, fundador e alma criativa da banda.

É uma obra conceitual.

As músicas mergulham profundamente nos dilemas existenciais humanos, como tempo, dinheiro, ansiedade, cobiça, além de terrenos pantanosos da mente, como a loucura e o delírio.

Roger Waters foi o vértice criativo e pensou cada detalhe, cada sequência, num dos mais lindos produtos narrativos da história da música.

É praticamente um sacrilégio ouvir esse álbum de forma aleatória.

Fazer isso é desperdiçar as belezas e sutilezas construídas em cada amarração, em cada transição, em cada mudança de ambiente.

Importante sublinhar que o Pink Floyd buscava se reinventar naquela época, tentando se livrar de um padrão criativo abstrato, com músicas quilométricas, excessivamente virtuosas, embora lindas.

O resultado mostra que conseguiram e é possível contar essa história sobre a perspectiva do conceito de possível adjacente.

Possiblidade adjacente significa entender o que está disponível e fazer o melhor uso disso.

É conhecer e se apoiar no existente. Tomar o suco do contexto da época.

É usar de abstração mantendo-se pragmático, sem considerar hipóteses distantes, tanto em tempo, quanto em execução.

A menos que você seja um visionário e queira viver no futuro distante e imprevisível, recomenda-se que suas ideias sejam possíveis de serem feitas com o que está a mão.

Tirar o máximo do mínimo. Evitar procrastinação. Atenuar frustração.

Pois bem, Roger Waters e o Pink Floyd fizeram isso.

Usaram o possível adjacente emocional de uma banda que precisa encontrar novos caminhos, mas que também precisava digerir criativamente aquela dor da cisão, provocada pela saída de Syd Barret.

Usaram o possível adjacente do mercado da época, onde as pessoas estavam disponíveis para temáticas mais filosóficas, num mundo de guerra fria, guerra do Vietnã e de efervescência cultural.

Levaram esse “suco de contexto” para dentro das letras das músicas.

E, finalmente, usaram do possível adjacente tecnológico.

As estruturas de gravações da época, quando comparadas com as atuais, eram primitivas e os recursos eram escassos.

Mesmo assim, “The Dark Side of The Moon” soa moderno e digital nos dias de hoje.

E isso, creiam, é fruto de mentes brilhantemente criativas.

Os sons de moeda em “Money”, os relógios de “Time” e a linda harmonia vocal de “The Great Gig in The Sky” foram feitos dos jeitos mais óbvios e simples.

Em “Money”, gravaram o som de centenas de moedas sendo despejadas num balde e os tilintares de caixas registradoras.

Em “Time”, foram até lojas de relógios e gravaram o som de vários deles isoladamente, para só então sobrepor e criar o efeito que você ouve na música.

Por fim, em “Great Gig in the Sky”, uma jovem vocalista chamada Clare Terry foi convidada a gravar uma participação especial sobre uma melodia pouco específica.

Perguntou o que fazer e recebeu como resposta que deveria fazer emulações vocais que significassem um sentimento de perda.

O resultado é uma obra-prima.

Uma das maiores obras musicais de todos os tempos é fruto de saber explorar o possível adjacente.

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