Mastertape #4: Anticoncepcionais criativos

Da deficiência nasceu um dos maiores guitarristas de todos os tempos.

Ele era um dos grandes. Da estatura de um Roberto Carlos.

Um dos maiores vendedores de discos da história da música brasileira.

Ganhou um cavaquinho do pai aos 7 anos e aos 17 chegou no Rio de Janeiro, onde começou sua carreira de trovador dos excluídos, das periferias, da vida marginalizada.

Brega,— esse era o rótulo que se dava ao seu tipo de música.

Isso não era pejorativo. Era estilo. E nesse estilo ele nadava de braçadas.

Era uma das vedetes da gravadora, um tipo de midas, aquele que convertia em sucesso tudo que cantava.

Seu nome é Odair José.

Tonni Iommi criou o Black Sabbath, tido por muitos como a pedra angular do Heavy Metal.

Aqui você pode ver essa história numa animação sensacional.

São 3 minutinhos de “biscoito fino”, narrados pelo próprio guitarrista.

Em 1972, já com esse status todo, contratado da Globo, numa dessas conversas de corredor, um dos executivos o chama de canto e diz:

“Odair, você precisa fazer uma música sobre a pílula anticoncepcional. Esse é um tabu danado, alguém precisa abordar o tema”

Apenas como contexto, naquela época o governo federal fazia uma ampla campanha sobre o uso da pílula.

Estávamos na época do desbunde, ‘do ninguém é de ninguém’, e achavam que alguma medida precisava ser tomada pra controlar esse furor sexual todo.

Odair saiu da conversa dando de ombros, imaginando que aquilo, escrever uma música sobre comprimidos, era uma bobagem.

Pouco tempo depois, o lendário André Midani, executivo da Philips, gravadora de Odair José, havia retornado dos Estados Unidos com uma novidade tecnológica.

Era um pequeno gravador espião, daqueles que você carrega no bolso, e que, segundo Midani, poderia ser usados pelos seus artistas para gravar suas ideias assim que elas aparecessem, na calada do acaso.

Midani foi generoso e inteligente e usou o possível adjacente da época (no texto #5 a gente explica).

Pois bem, alguns dias depois, Odair José teve sua epifania, os versos vieram à sua cabeça e o resto é história.

Apresentou a música para a gravadora, o lançamento foi acelerado e a música da pílula se tornou um dos maiores sucessos daquela época.

Odair disse que só fez a música para não encherem mais o saco dele.

O mais curioso é que a letra da música é contrária ao espírito da época, pois Odair implora a sua amada que pare de tomar a pílula, para que possam concretizar os frutos de sua relação e para que tenham um filho juntos.

Era uma mensagem pró-concepção.

Logicamente, por esse abordagem inusual, a música foi censurada.

No entanto, queremos chamar atenção para o pano de fundo dessa história, ou suas sub-narrativas.

É emblemático.

Uma produção como essa, quando vista com distanciamento histórico, nos permite enxergar o quão conectado e neural é o processo de construção criativa.

Tem o gatilho da ideia vindo de um executivo da gravadora, tem a perspicácia do Andre Midani, com seu gravador, tem o contexto social da época e tem o Odair José, o artista reticente num primeiro momento e que depois se deixou levar e entrou no fluxo criativo.

O viés de retrospectiva é uma tendência das pessoas a compreenderem um resultado como fruto inequívoco de uma sequência de situações que, em retrospectiva, pareciam previsíveis.

Esse mesmo viés pode nos levar a interpretar a história dessa música da mesma forma, entendendo que seria inevitável um cara como Odair José compor a música da pílula.

Como percebemos, não é bem assim.

Se você estuda esta história, entende que até os gênios tem seus momentos de rigidez criativa, entende que um processo de criação é associativo e compartilhado e que um sucesso se constrói a muitas mãos.

Portanto, não acredite em heróis, evite vieses, estude história, grave suas ideias e pare de tomar a pílula da intransigência.

Ouça mais. Pondere. Reconsidere.

Faça como Odair.

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