Baseado em fatos raciais

Documentários são boas opções de entretenimento, pois dão a sensação de maximização de tempo, onde você está entretido num momento de lazer e ao mesmo tempo recebendo doses de histórias.

Felizmente estamos em uma época de grande produção audiovisual, com os meios digitais facilitando a entrega e disseminação de conteúdo.

É o tal do possível adjacente a serviço da sincronicidade, num misto de pensamento coletivo e capacidade de criação impulsionados pela época e pelos recursos que temos.

“Baseado em fatos raciais” é daqueles documentários catedráticos que valem por um curso, tamanha a variação de temas que são abordados, todos bem costurados, numa aula de narrativa.

É uma história sobre discriminação e criminalização.

Começa no princípio do século passado, com a chegada da cannabis em território americano, com a coisa toda se disseminando na região do Texas e de Nova Orleans.

Esse é um momento crítico da história americana, com exacerbação do sentimento xenofóbico, em virtude de um intenso fluxo de imigrantes vindos de todos os lados, mas sobretudo do México.

Tão logo a cannabis chegou, foi imediatamente incorporada nos hábitos de afro-americanos e dos imigrantes, fato que levou as autoridades a tomar medidas de contenção para que o “vírus” e o “mal” não se alastrassem.

A preocupação inicial era frívola, a de que os bailes que aconteciam nessas comunidades estava atraindo mulheres brancas e deque elas poderiam ficar vulneráveis ao assédio dos negros caso estivessem sob efeito da maconha.

E a simples hipótese dessa miscigenação era intolerável para os brancos conservadores que conduziam a polícia e política americana.

O que começou com esse motivo tolo e com tímida repressão policial se converteu com o tempo numa cruzada obsessiva do governo federal, usando da poderosa máquina de propaganda para disseminar lendas, boatos e fake news sobre a marijuana, já devidamente rebatizada com um nome latino, numa tentativa clara de associar o canabinóide aos imigrantes.

Diziam até que os usuários de maconha assumiam estados mentais de descontrole e violência, convertendo-se em agressores raivosos e facínoras em potencial.

Pois, é? Viagem total. Parece até que tinham fumado algo para pensar nisso.

Aqui entra um parênteses.

{Que a coisa toda precisa de controles, que fomentar um mercado clandestino implica num manancial de problemas sociais, nós sabemos, mas, cientificamente falando, não há nada que evidenciasse a paranóia e a propaganda americana}

Eo governo sabia disso, pois o estado de Nova Iorque, remando contra a maré, encomendou um relatório para investigar os efeitos da maconha.

O “Comitê de La Guardia”, como ficou conhecido, desmentiu categoricamente todas as alegações criminalizantes, conforme você pode ver neste breve resumo.

Mas não bastaram as evidências. Não bastou a boa ciência.

Álcool e tabaco, sabidamente mais nocivos e perigosos, com impacto social amplamente negativo, continuam legais até hoje, independente do volume de estudos científicos que atestam seus malefícios.

A propósito, uma boa dica de leitura é o livro Factfulness, que aborda a nossa baixa capacidade de atualizar nossos dados sobre todas as coisas, o que nos leva a cometer erros de análises, achando que as situações, ou são muitos piores ou melhores do que pensamos.

Continuando…

A sanha repressiva e proibitiva tomou conta do país, com legisladores se apressando para criminalizar o uso da maconha, o que ocorreu num verdadeiro efeito dominó.

Nessa época, as prisões estaduais tinham incentivos para combater a criminalidade e ganhavam um repasse federal baseado na quantidade de presos, o que levou a implementarem forças-tarefas em bairros pobres, efetuando prisões por qualquer mínimo deslize, como a posse de uma mera ‘ponta de baseado’.

Essa política de incentivos perversos conciliada com a famosa lei dos 3 delitos criou um sem número de atrocidades jurídicas.

Pela lei, as penas seriam progressivas em caso de novos delitos, podendo chegar a prisão perpétua em casos extremos.

Dessa forma, se você fosse pego por uma contravenção de trânsito, por exemplo, uma segunda detenção por posse de um cigarro de maconha poderia colocá-lo na cadeia por 7 anos e uma terceira por 13 anos, sem que fossem levados em consideração a gravidade dos atos.

Milhares de famílias foram prejudicadas e gerações inteiras foram afetadas por essa política.

Em paralelo a tudo isso, nesse contexto de perseguição, negros americanos criavam as bases do jazz e do blues, num dos momentos mais férteis da cultura americana.

Grandes nomes da música e da literatura sofreram essa repressão ao mesmo tempo que experimentavam seus momentos de esplendor criativo, tudo isso nas décadas que antecederam a luta pelos direitos civis.

Louis Armstrong um dos maiores jazzistas de todos os tempos dizia preferir o direito a posse de maconha do que advogar pela posse de armas.

A dinâmica cultural dessa época, num paralelo com o Brasil, assemelha-se ao que vivemos na época da ditadura, onde os nossos artistas foram perseguidos, censurados e, em casos extremos, exilados do país.

Naquela época, para driblar a censura, os artistas brasileiros criavam figuras de linguagem que visavam escamotear mensagens políticas e de protesto, fazendo uso de palavras de duplo sentido e de metáforas sociais que eram devidamente captadas pela audiência, por sua fina ironia e humor.

Os negros americanos faziam o mesmo, criando uma diversidade de nomes e expressões para se referir a maconha — weed, pot, reefer, grass, hash, acapulco gold, bhang…

Era assim que artistas combatiam e continuaram a combater regimes que criaram esse distanciamento do poder, teoria concebida pelo psicólogo holandês Geert Hofstede, segundo o qual culturas distantes de suas lideranças tendem a ser menos criativas, inclusivas, democráticas e produtivas.

Essas culturas não toleram e não incentivam o debate, são autocentradas, e com liberdade de expressão restrita aos os limites definidos como convenientes pelo poder dominante.

Aconteceu lá, aconteceu cá. E acontece em muito lugar ainda.

Nos Estados Unidos, o binômio discriminação racial e criminalização da maconha produziu efeitos sociais devastadores.

Mais da metade das prisões envolvendo drogas são de usuários de maconha, e isso atinge majoritariamente pobres, negros e latinos.

Apenas no ano passado, mais de 600 mil pessoas foram presas por esses motivos, num sistema prisional onde um preso custa mais de 100 mil dólares por ano, quase o dobro de um universitário.

A conta é cruel demais, ainda mais refletindo que esse mesmo preso teria baixíssima possibilidade de se tornar um universitário, em face de suas precárias condições sociais. {aqui tem um texto sobre o sistema de ensino superior americano que pode ser uma boa leitura complementar}

Mas o mundo, essa coisa redonda (?!), dá voltas.

Hoje marijuana recuperou seu nome de outrora, e agora, vestida de cannabis, é um dos mercados mais promissores, com estimativa de movimentar 57 bilhões de dólares em até 5 anos.

O que antes era coisa de vagabundo, hoje é coisa de empreendedor.

Empreendedores brancos, claro!

Os fundos de private equityque estão entrando em peso nesse mercado posicionam seus investimentos onde os investimentos sempre estiveram, reforçando desigualdades até mesmo quando se apropriam de culturas sem dar a elas o direito de reparação histórica por décadas de perseguição e marginalização.

Baseado em Fatos Raciais é também um documentário sobre a hipocrisia.

Em breve surgirão as startups “unicórnios” da maconha e não vamos querer ser incomodados por essas lembranças históricas, pois estaremos ocupados louvando algum novo vale de empreendedores.

Às vezes, as propostas de valores, “de negócios de sucesso”, escondem valores que não foram propostos para todos.

Assistam e façam suas análises.

A trilha sonora é ótima e casa bem com o silêncio que nos invade no final.

A ampliação de repertório é uma das das coisas mais importantes para nós. Acreditamos na capacidade de promover conexões e traçar paralelos em diversos contextos, inclusive nos filmes. O mais importante é mudar a lente buscar novos enquadramentos.

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