Amanda e o viés.

Ela é jovem, bonita, universitária e foi buscar significado para sua breve existência em um intercâmbio estudantil na cidade de Perugia na Itália.

É daqueles tipos que você, se maior de 30 anos, acha entediante, irresponsável, imatura, um desatino só.

Como se eu e você também não tivéssemos sido assim.

Prossigamos.

Amanda dividia apartamento, ansiedades, sonhos, urgências e angustias com a britânica Meredith.

Tudo ia bem, com a belíssima Perugia a emprestar lirismo para vidas que desabrochavam, até que a fugacidade da vida se fez notar.

Num dia qualquer, uma chamada policial dá conta de um evento anômalo que choca a pacata Perugia.

Meredith, colega de quarto de Amanda, foi brutalmente assassinada naquele que seria o prefácio de uma história repleta de nuances que ainda repousam misteriosos.

O documentário da Netflix repassa a cronologia da história e se detém exclusivamente na polarização entre acusação (promotoria italiana) e acusados (Amanda e seu namorado Rafaelle).

Não há julgamentos tendenciosos na condução do filme, que se escora em cenas reais de tribunal e em entrevistas com os personagens da história.

Amanda Knox não exerce empatia. É confusa e quase perturbadora.

Ora se mostra autoconfiante demais, ora pouquíssimo convincente em suas dores existenciais. Ela não se rende, tem clareza de sua inocência e não fraqueza um instante qualquer, mas faz isso de um jeito incomum.

Ao não se encaixar em nossos estereótipos, Amanda deixa em todos nós a inquietação exasperante, a quase certeza de sua culpa, mesmo que os fatos existentes se equilibrem, sem nunca revelar um veredicto completamente plausível.

Há lacunas relevantes, para além da dúvida razoável, tanto na acusação quanto na defesa. No entanto, o que me toca na história, é nossa capacidade de julgar, de não se permitir dúvida, de criar pontes entre abismos, de preencher histórias com estereótipos.

O perturbador em Amanda é que ela desafia e alimenta tudo isso.

Um documentário sobre um crime, mas sobretudo sobre como o ser humano interpreta o ser humano.

E sobre caminhos e descaminhos, sobre o que pensamos e sobre como isso conversa com nossas profundezas.

Um documentário sobre vieses cognitivos e sobre como isso pode impactar nossa capacidade de julgar e de tomar decisões.

A ampliação de repertório é uma das das coisas mais importantes para nós. Acreditamos na capacidade de promover conexões e traçar paralelos em diversos contextos, inclusive nos filmes. O mais importante é mudar a lente buscar novos enquadramentos.

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