Mulheres do planeta Terra: Eu, Patti e Charlotte.

Depois do soco no estômago do último post, fiquei pensando que não dava para seguir reproduzindo os mesmos padrões danosos. Já tinha decidido e priorizei meus livros de ficção e utopia, pelo menos nas férias. Deu ruim, mas deu bom. Se você quer que esse texto faça mais sentido, recomendo a leitura do post: Eu sou o retrato da sociedade do cansaço.

2020 é uma década novinha em folha e me fizeram prometer que leria mais livros não técnicos, que estavam a uma década totalmente despriorizados na minha jornada louca de graduação, mestrado, docência e empreendedorismo. Levei duas indicações de homens que eu admiro profundamente sobre autoras mulheres para ver o outro lado da moeda. Achei implacável a peça que o destino me pregou.

Eles me ensinaram tanto sobre o mundo contemporâneo e suas tecnicalidades, que a minha tentativa de hacker o sistema e entender a visão de mundo por outro prisma foi coadjuvante no processo todo. Por isso, antes de começar retiro da discussão esse binarismo muito louco de homem e mulher do sentido biológico que eu impus no desenho do meu experimento. No lugar, quero colocar um binarismo de arquétipos feminino e masculino. Posso? Se não curtiu pode parar por aqui. Só vai piorar.

Numa definição bem criança de 6 anos, o arquétipo pode ter diferentes significados dependendo da área de conhecimento, mas de forma prática, é algo que automaticamente surge na nossa cabeça, sem que saibamos explicar o porquê ao sermos convidados a pensar sobre um tema. Quer ver?

Pense em Balé.

Veio á sua cabeça uma menina magrinha com uma sainha de tule e sapatilha, não?!

Poucas pessoas conseguem tirar a bolha já no ato reflexo. Ou seja, é o conjunto de características e representações do que segue um modelinho esperado. O lance é que esse modelo já faz parte do nosso inconsciente, aí que mora a dificuldade de combatê-lo.

É nesse rolê que eu, Patti Smith e Charlotte Gilman nos encontramos, a gente se debate toda com o arquétipo feminino, cada uma no seu lugar de fala, cada uma no seu tempo, mas todas se debatem com o modelo e com o que esperavam ou esperam da gente. Recorrendo ao post anterior e minha decisão de parar de reproduzir padrões danosos, vamos tentar começar a escancarar esse de feminino e masculino?

Patti Smith escreveu o segundo livro que li nessas férias, chamado Só garotos. Pensa numa mulher brilhante que passou por poucas e boas na vida para fazer arte. Ela e o amor da vida dela, Robert Mapplethorpe, viveram uma relação amorosa bastante fora dos padrões românticos e o livro a descreve de maneira sem precedentes, no entanto, o que me chamou atenção aqui foi o fato de, por não se encaixarem no arquétipo que lhes era imposto socialmente de mulher feminina e homem masculino eles sofreram. E muito. Esperavam da Patti vaidade e ela tinha outras prioridades e visões sobre isso. Esperavam do Robert virilidade e força e ele era o oposto disso. Aí a pergunta é: quantas Pattis e Roberts a gente não perdeu nesse planeta Terra por pura pressão dos arquétipos? Na Sociedade do Cansaço, na Era das Redes Sociais, valorizamos diversidade e sacamos que ela é importante, mas será que a gente está conseguindo mudar os arquétipos? Minha visão é: potencialmente não. A gente ainda espera do arquétipo feminino bondade, beleza e fofura e do arquétipo masculino agressividade, inteligência, pragmatismo e objetividade. Ainda que a gente tenha “liberado” orientação sexual e definições de gênero e construído essa ideia de “você pode tudo”, ainda esperam as mesmas coisas de você. Nada de errado nisso, mas será que não geramos uma pressão desnecessária?

Só Garotos – Patti Smith

Patti é dos anos 1980 e o livro versa lindamente sobre esse contexto de produção artística em NY nessa época. Tinha pressão para reprodução dos arquétipos feminino e masculino. Eu, 40 anos depois, ainda vejo e sinto essa pressão que sofro por não seguir o arquétipo feminino e ter priorizado minha carreira, de ser julgada por trabalhar e viajar muito enquanto meus amigos e primos (homens) são admirados por fazer exatamente a mesma coisa. Do outro lado tem a Camila, que por ter crescido nesse arquétipo, gasta uma energia enorme querendo estar com o cabelo arrumado, a unha em dia e o look adequado. De novo, nada de errado nisso, mas tem um padrão aí que não existe mais na teoria, mas na prática ainda é esperado e se enraizou. Isso é um catalisador da Sociedade do Cansaço.

Aí você pensa, quanto tudo isso começou? Onde isso se enraizou? Aí vem minha terceira leitura e mais uma mulher do planeta Terra que vocês precisam conhecer: Charlotte Gilman. Essa foi a terceira peça que o destino me pregou.

Terra das Mulheres – Charlotte Perkins Gilman

Falaê Destino!? Qual sua música no Fantástico?

Piadas a parte, minha terceira leitura foi Terra das Mulheres. Livro de 1915. Uma utopia feminista. Em linhas gerais, a obra conta a história de 3 homens com níveis de objeção ao arquétipo masculino bastante diferentes numa jornada por um país que foi criado, organizado e desenvolvido somente por mulheres por 2.000 anos. Os diálogos não são super excitantes, mas educativos num nível poucas vezes visto por mim. Legal!? O que isso tem a ver com o que já está escrito? Padrões de novo. A Charlotte conta pra gente de maneira bem descritiva o que se esperava dos arquétipos femininos e masculinos sobre dois pontos de vista o de uma mulher (ela) e dos homens alegoricamente representados pelo Van, Jerry e Terry. Tudo isso está aí a tento tempo. E aprisiona as pessoas desde sempre. As crises do personagem mais machista ao ver que a Terra das Mulheres era super colaborativa e desenvolvida e não fofoqueira e esnobe, como ele esperava são hilárias de tão desesperadoras e contemporâneas. Muita gente critica o arquétipo feminino criado por ela na narração, mas a lição que eu tiro de tudo isso é:

1. padrões e rótulos são ruins. Matam talentos e desenvolvimentos enormes há anos;

2. Elas estavam me avisando e eu não soube ler. #HeForShe e #MeToo #OndeEstãoAsMulheres #PrimeiroAssédio #MexeuComUmaMexeuComTodas #TimesUp são só a linguagem das redes sociais para discursos que a Patti e a Charlotte já estavam defendendo. É sobre unir forças e não medir, sabe!?

Se você concorda aqui vai um projeto massa que a gente vem pensando faz tempo sobre tudo isso: Mastertech Nísia

Se você não concorda, também olha e me conta porque você não concorda. Conflito positivo é o que construiu uma carreira como a da Patti e uma narrativa como a da Charlotte #ficaadica.

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