Iludidos por Estranhos
Por Fábio Ribeiro

Duas de minhas leituras recentes se abraçaram em perfeita convergência.

“Falando com Estranhos” é o novo livro de Malcolm Gladwell, famoso por sua habilidade em combinar histórias aparentemente aleatórias em tratados quase sempre brilhantes sobre a psicologia humana e a economia comportamental.

Ele é perito em colocar espelhos em pontos cegos, nos levando maliciosamente por suas construções argumentativas, fazendo crer que o mundo e suas intrincadas relações podem ser explicadas por uma simetria de comportamentos e padrões.

Em “Outliers”, por exemplo, um de seus best-sellers, ele prima por tentar encontrar um padrão nos hábitos de pessoas bem-sucedidas, chegando a exprimir como base para o sucesso a regra das 10 mil horas de treino e dedicação em qualquer que seja seu ofício.

É preciso ler para tirar conclusões. Eu concordo, discordando.

Concordo pela essência, do hábito e repetição forjarem excelência, mas discordo da matemática determinística, muito mais próxima de pobre autoajuda do que de ciência de qualidade.

No entanto, Gladwell, como bom pensador, parece ter suavizado o discurso e contemplado um pouco mais de acaso e improbabilidade em suas teorias.

“Falando com estranhos” é sobre padrões, mas não no sentido reverencial.

O livro repassa as armadilhas mentais a que somos expostos, pois, reféns de um sistema que se habitua a pensar por associações, se torna, pouco a pouco, incapaz de interpretar os diferentes, os raros, as anomalias.

De certa forma, Gladwell nos alerta para o risco implícito em tentar encaixar o mundo em médias, em padrões, receitas, fórmulas e algoritmos.

Inevitavelmente, pela força irrefreável dos vencedores, sejam empresas, modas ou produtos, o ciclo se retroalimenta de forma, digamos, perversa, impedindo que comportamentos divergentes sobrevivam.

Com isso, não mais do que repente, passamos a ter pouca sensibilidade em dialogar e entender os estranhos citados pelo autor no título do livro.

A estranheza vem do fato de que eles quebram as convenções, agindo de um jeito que demora a ser percebido como errático, pois seria demasiadamente contrário a lógica esperada.

Esse tempo, esse “gap” de percepção, permite o surgimento de oportunistas, que se valem dessa incapacidade coletiva de lidar com o diferente, para agir de forma nefasta, em casos de assédio, fraudes financeiras e até terrorismo.

Falando com estranhos é sobre como lidar com pessoas que fogem aos padrões, mas também pode ser aplicado a dinâmicas sociais, corporativas, movimentos do mercado de ações, ou até mesmo epidemias, como a do coronavírus, cujas proporções, pouco a pouco, começam a afligir o mundo todo.

Tirando o foco das coisas negativas, dá pra enfatizar que essa sociedade dominada por algoritmos que reforçam padrões, também esconde, em certa medida, alguns cisnes negros.

“Cisne Negro” é título de uma obra de Nassim Taleb, que atenta para nossa capacidade quase que nula de prever eventos que nunca existiram, simplesmente porque eles…. nunca exisitiram.

A queda das Torres Gêmeas é um clássico Cisne Negro, pois símbolos culturais com aquele significado nunca foram atingidos por aviões comerciais, em atos terroristas. Da mesma forma que Kobe Bryant nunca tinha sofrido um acidente de helicóptero até o dia de sua morte.

Taleb, um entusiasta da filosofia, recém lançou o livro “Iludidos pelo acaso”, a leitura que se relaciona com “Falando com Estranhos”.

No livro, num resumo pobre, Taleb aborda nossa baixa capacidade de fazer raciocínios probabilísticos, sobretudo de eventos tidos como raros.

Essa incapacidade faz a gente crer que somos mais capazes e competentes do que somos, pois, por diferentes razões, acreditamos que ciclos favoráveis se justificam por padrões que a gente cria para encaixar nossa teoria de mundo.

Dessa forma, basta um evento aleatório para que empresas, negócios e pessoas destruam anos de uma construção que se acreditava sólida, mas pelos motivos errados.

Enfim, é possível ser bem-sucedido sem sequer saber os motivos para tal, construir narrativas que reforçam nossas crenças e, com isso, eventos “estranhos” e “aleatórios” podem causar danos e machucar mais do que seria possível suportar.

Ou, analisando o copo meio cheio, essa mesma incapacidade de lidar com o improvável e diferente pode nos fechar portas para oportunidades que sequer vamos enxergar.

“Falando com Estranhos”, de Malcolm Gladwell, e “Iludidos pelo Acaso”, de Nassim Taleb, são leituras indispensáveis para quem se permite ver o mundo além das estruturas óbvias.

É a lógica pela sua negação.

Iludidos por Estranhos
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