Eu sou o retrato da Sociedade do Cansaço

Não é bom, nem ruim. Não precisa ter dó e começar uma campanha para cuidar da Camila cansada, porquê isso é só mais uma vontade característica da sociedade do cansaço, por isso eu diria que é um alerta, que essa é uma reflexão essencial para qualquer humano, demasiado humano como descreveu Nietzche. No livro com esse título, ele defende que a humanidade dos humanos acaba quando os momentos contemplativos acabam nas suas vidas. Ops! Qual foi a última vez que você viu um tido exemplo de empreendedora(o) de sucesso contemplando algo fora do instagram para ganhar mais seguidores?

Tirei férias de 10 dias e minha alegria foi gerada pela possibilidade de conseguir adiantar a minha pilha de livros e ter tempo de ler e oxigenar, para no retorno produzir conteúdo de qualidade e renovar meu repertório para as aulas e produções do Mastertech. Alguém se identifica? 

Decidi também que leria só recomendações de amigas e amigos, pedi para os mais próximos, outros me ofereceram por livre e espontânea vontade e saí do Brasil feliz da vida com todos os meus livros na mala. Logo no primeiro trecho de avião um soco no estômago. Comecei pelo mais fininho, porque inconscientemente ele seria o que mais rápido me traria o efeito de produtividade (duvido que eu falaria isso na hora da escolha, mas foi isso e ponto).

O livro foi traduzido para Sociedade do Cansaço, li no original com o título Burnout Society. Ele é bem mais teórico do que essas receitas prontas de auto ajuda de livro de aeroporto, e por algum motivo o título me levou a achar que podia ser algo do tipo. Nada. Acadêmico. Filosófico. Asiático. Manja?! O autor é um filósofo coreano chamada Byung-chul Han com muito repertório e bastante atual. De todo o ensaio, o meu tweet-resenha bem direto ao ponto foi: 

“queridinhos usuários de redes sociais em que tudo é bonito, leitores de livros de auto-ajuda com histórias bonitas de superação e conquista de outros humaninhos, fofuras que sonham em empreender e virar o bem-sucedido rico da vez, jornalista que fica aí perguntando o próximo passo de qualquer startup que nem fatura….vocês vão se dar mal, se já não se deram. Parem de ficar falando SIM para tudo, achando que tudo vai dar certo e que tudo é possível, que é só querer. Vocês estão doentes, só que ao invés de serem acometidos por doenças bacterianas ou virais como no século 20, vocês serão acometidos por patologias neurais, ou seja, vão sofrer de depressão e ansiedade cedo ou tarde. Chega, tá!? Não vou falar de novo. Assinado um filósofo oriental pouco mainstream, mas que está de olho no rolê.”

Falando sério agora, a premissa dele é bem simplista e coerente. Ele defende que o excesso de positividade culminou na criação de uma sociedade do desempenho, onde produtividade é o norte dos indivíduos. Já não somos mais uma sociedade disciplinar e sujeitos obedientes, temos que ser empresários de si. No lugar de proibições, regras, leis e NÃOs, temos projetos, iniciativa, motivação e “Yes, we can”. Ao invés de loucos e delinquentes, estamos gerando depressivos e fracassados. Afinal não há dúvida de que o sujeito da sociedade do desempenho é mais rápido, produtivos e assertivo que o sujeito obediente, mas o problema está em transformar o poder em uma espécie de dever, ou pior necessidade.

Agora vamos para o parágrafo das verdades escancaradas. Me digam se esse glamour empreendedor, esses milhões em investimentos com migalhas de faturamento, esse estereótipo de super poderes dos CEOs fundadores não são provas ou até consequências de tudo isso que nosso autor descreve. Essa canseira de ter que ser você mesmo, transformar tudo num post, colocar sua vida num roadmap, preencher um canvas de qualquer projetinho, gera uma autoexploração do indivíduo que se entrega ao excesso de trabalho munido de um sentimento de liberdade. Eu. Eu. Eu. Você. Você. Você.

Aí você chegou até aqui e deve estar pensando: fofa, eu sei. Eu sinto. Eu tô. Eu sou. E agora? Pois é, o lindão esqueceu esse pedaço. Não deu diretrizes claras, afinal acabou esse lance de sociedade da disciplina, não é mesmo!? No entanto, o resto das férias e os próximos 2 livros que eu li me deram uma acalmada no coração. Aguardem o próximo post, mas aí vai um tweet bem do batido do que eu venho pensando: a gente diz viver na era da informação e não tá usando para resolver o problemas que não estão sendo resolvidos e deveriam ser os primeiros da lista, a gente tem se eximido do debate e da contemplação das ideias. A gente não quer mais ouvir o outro que não concorda com a gente, a gente parte para o quebra pau, a gente digita no google e esfrega na cara, a gente manda um link e pronto. A gente não contempla mais ideias e pensamentos. A gente só usa o que convém para gente e já estão na nossa bolhinha criada especialmente para agradar a gente. Entramos nessa década novinha em folha com uma moda que desperdiça, uma indústria que polui, uma alimentação balanceada que deixa milhões com fome, uma escola que não ensina porquê a gente esqueceu do NÃO. Byung-chul Han obrigada pelo meu retrato.

Deixe uma resposta