Ela Disse

Confiança é difícil de ser construída e nutrida.

Conto um caso pessoal.

Dois, até.

O primeiro, esportivo.

Por anos a fio dediquei-me diligentemente ao hábito da corrida. Era disciplinado ao extremo, o que me fortaleceu mentalmente e modelou uma série de comportamentos positivos e entrelaçados, atingindo outras áreas da minha vida.

Eu sabia que chegaria ao fim, sabia que chegaria bem, sabia que chegaria melhor, o que me fez racionalmente exuberante sobre toda e qualquer tarefa de vida, micro ou macro, cotidiana ou de longo prazo.

A tal exuberância se disfarçou lentamente de excesso de confiança e, abreviando a história, contraí lesões que hoje são limitações doloridas.

O segundo caso é profissional.

Conheço-me relativamente bem, ao ponto de saber que existem épocas de maior efervescência criativa sucedidas de outras mais desérticas, onde você se questiona o quanto sabe das coisas e coloca em descrédito sua capacidade de voltar a ser eficiente, útil e relevante.

São ciclos voláteis, cuja experiência nos leva a relativizar os extremos, sem ficar excessivamente eufórico nas altas ou irremediavelmente deprimido nos ciclos de baixa.

Hoje, como contexto, estou na fase de baixa e tento achar trabalhos alternativos que me recoloquem em posições mais neutras de emoção.

Felizmente, no meu caso, posso oscilar entre naturezas diferentes de trabalho dentro do espectro da minha função. Sei também que isso é algo impensável para trabalhos mais rotineiros, mas essa é outra divagação.

O que une as duas situações é o espiral de confiança.

Na corrida ou no trabalho, ciclos positivos ou negativos se retroalimentam e modelam personalidades.

Desnecessário dizer que precisamos, cada um em suas áreas, encontrar os gatilhos positivos e estabelecer uma dinâmica que mantenha a confiança em alta, do contrário passamos a aceitar com incrível resignação um ambiente de permissividade negativa que vai nos levar a viver em constante estado de supressão de estima.

Fiz esse aparte particular para entrar no tema do artigo, que trata de uma breve descrição do livro “Ela Disse”, um magnífico trabalho de reportagem sobre a cultura do assédio sexual sofrido pelas mulheres nos mais diferentes meios corporativos.

O livro é, ao mesmo tempo, chocante e fascinante.

Choca pelo absurdo, pela imoralidade e pela indignidade a qual mulheres foram submetidas por décadas em estruturas sociais que as amordaçaram em burocracias torrenciais, que protegiam seus algozes.

Sim, burocracias, pois há quem se defendesse no argumento de que existiam leis de proteção, regulamentos, políticas, estruturas de apoio que permitiriam externar casos de assédio e que, portanto, as mulheres poderiam sentir-se seguras em expor, denunciar e se defender de comportamentos violentos e constrangedores no ambiente de trabalho.

Tudo não passava de mera retórica corporativa, um malabarismo de “compliance” que apenas servia de fachada para disfarçar e acentuar as práticas de assédio, pois exigiam como contrapartida a apresentação de provas explicitas de comportamentos que geralmente se dão de forma covarde, camuflados pela dissimulação dos clássicos “eu não fui bem compreendido”, “não foi minha intenção”, “eu não quis dizer ou fazer isso”, e outras tantas tolices que as pessoas dizem quando confrontadas por acusações de imoralidades.

Ao mesmo tempo que a leitura enoja, paradoxalmente é também fascinante.

É impossível não se sensibilizar com a devoção, com a forma criteriosa e com os métodos persistentes e organizados que duas jornalistas do New York Times, Jodi Kantor e Megan Twoney, empregaram para descortinar um dos maiores esquemas de assédio sexual já vistos na indústria de entretenimento.

Partindo de pequenas pistas, enfrentado resistências de todos os tipos, elas construíram relações de confianças com vitimas de assédio, que pouco a pouco se abriram, se conectaram e ajudaram com suas histórias a colocar em evidencia o padrão de ataques que aconteceu por décadas sob os olhares complacentes de toda uma indústria.

“Ela disse” é um tratado sobre o assédio sexual, é a fonte de um movimento que se ergueu sob seus ombros, o #metoo, e deu voz e força a milhares de mulheres no mundo todo para enfrentarem estruturas viciadas, ultrapassadas e que normalizaram a opressão continuada.

“Ela disse” é sobre isso, mas é sobre tantas outras coisas e permite tantas outras leituras, mas é sobretudo sobre confiança.

Confiança no sentido mais estrito da palavra.

Confiança que foi subtraída das mulheres no ambiente de trabalho, nos ambientes acadêmicos, nos ambientes sociais e em tantos outros.

Confiança que foi recuperada, mesmo que tardiamente e parcialmente, com a publicação desse livro.

Confiança é um sistema que se alimenta em espiral.

Seja do ponto de vista de uma vida irrelevante como a minha, e nos dois exemplos que abriram esse texto, seja em algo da magnitude social de assédios sexuais sistematizados.

Comportamentos oportunistas e culturas doentias se alimentam de ambientes onde pessoas se sentem inseguras, indefesas e abandonadas.

“Ela disse”, diz muito.

Basta escutar. Ou melhor, ler.


Ela Disse
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