O Cheiro do Ralo

Quarta-feira, 18 de março de 2020. 06h:24 da manhã.

Faz sol lá fora. Olhando para o céu, parece tudo normal.

Não está.

Estamos experimentando coisas novas.

Amargas, mas novas!

O mundo ao qual nos acostumamos em anos recentes é o mundo eficiente. Ou que persegue a eficiência.

E, sim, claro, sempre foi assim. Sempre buscamos a eficiência.

Darwinismo. Natureza. Não é esse o papo?

Acontece que agora temos meios de praticar eficiência em níveis exponenciais.

Batido. Clichê. Mas é assim que é.

Sim, a tecnologia, ela mesmo, permitiu que mais pessoas pudessem entrar no tabuleiro simultaneamente. O jogo ficou grande, complexo, intrincado.

Só que esse é um jogo que não aceita cochilos.

Esse jogo rejeita quem para de pedalar, quem se distrai, quem não tem capacidade de manter a rotação lá em cima.

Não há perdão.

O mercado não dá a outra face. O mercado mata.

O mercado é tipo Charles Bronson.

Empresas enxutas, modelos de negócios baseados na otimização, o corte do supérfluo, a leveza de quem não produz em excesso, a cadeia logística quase perfeita, os elos super dependentes uns dos outros.

O mundo econômico nunca pareceu tanto quanto a coisa mais perfeita que já existiu.

Sim, o corpo humano, ele mesmo, a máquina (quase) perfeita.

É tudo tão sincronizado, tão bem encaixado, cada coisa no seu lugar, tudo com função clara.

É lindo, o corpo humano é lindo, mas basta uma unha encravada, um dente dolorido, uma inflamação na garganta, uma célula que cresce desordenadamente.

Basta uma pequena coisa sair de controle, que todo o sistema corre para compensá-lo.

E, sim, o corpo, às vezes colapsa.

Basta um vírus.

Ah, o vírus, é esse o ponto que amarra o texto?

É sim, esperava o que? Falar de BBB?

E, se estamos falando de vírus, falando de sistemas imunológicos, falando de empresas, de negócios, de corpos humanos, de partes conectadas, de interdependência, é importante falar sobre os elos frágeis dessa cadeia.

A tecnologia, os métodos ágeis, a transformação digital, toda essa narrativa moderna de como as coisas funcionam apenas faz sentido se, no fundo, no limite e na essência, criar um sistema saudável.

Mas aí temos uma questão meio capciosa.

Não dá, na economia, para ser saudável sozinho.

Não somos apenas fruto dos nossos próprios cuidados.

Ou todos lavam as mãos, ou não importa o quanto a minha e a sua estejam limpas.

Em algum momento, o contágio vai se alastrar. E eu, você, e toda a turma do álcool gel vai pro mesmo buraco.

A metáfora é a mesma.

O sistema só é eficiente se for eficiente para todo mundo. Do contrário, é apenas um filme ruim.

Não importa o quanto o Facebook, a Amazon, o Google, a Tesla, a Netflix, os bancos, as automobilísticas, e todos os outros mastodontes, sejam robustos, eficientes, saudáveis, ecologicamente e politicamente corretos.

Não importa o quanto essas empresas são sagazes para lidar com a crise, não importam suas medidas protetivas e suas mensagens irradiando confiança e estabilidade.

Nada disso importa se os elos mais frágeis forem rompidos.

As relações são muito desiguais no mercado.

Há quem dite o ritmo, há quem siga, e há uma infinidade de situações entre uma coisa e outra.

Pequenos empreendedores, pequenos comércios, os periféricos que colocam óleo nessa engrenagem, que movimentam a roda, estão em risco.

É hora de aplicar o conceito de empatia muito além do Instagram.

Numa economia altamente dependente, não dá pra evocar o princípio da teoria da evolução, onde os mais fortes sobrevivem.

Simplesmente não dá, pois tem um lance chamado consciência.

Deixem o Darwin longe disso e não deturpem sua teoria.

E também não venham com o papo de liberalismo ou livre mercado.

Não é hora de palestra. Não politizem discussões. Não é tempo pra isso.

Parem de olhar para a bolsa de valores e olhem para os valores que vocês carregam em suas bolsas existenciais.

Criamos uma situação econômica baseada no marketing de acolhimento, da sociedade que compartilha tudo, dos algoritmos que induzem emoções.

Pois bem. Era tudo falso?

É hora de olhar pra cada frase de marketing escrita nos últimos anos e colocar a pele em jogo.

Essas frases eram lindas, sustentaram estratégias, geraram dinheiro, falavam aos corações de clientes e consumidores. Eram emocionantes, não? Todas tocantes, cheia de gente, de sentimento.

Pois bem, executem-nas.

Ou vamos viver pedindo desculpas pelo cheiro podre que vem do ralo.

Não sabe a história?

Tem um filme chamado O Cheiro do Ralo.

Pôster do filme: O Cheiro do Ralo – 2006

É mais ou menos assim.

Um comerciante vive da exploração dos seus clientes.

Ele é um penhor, que usa a seguinte máxima:

É preciso pagar o menor preço possível e vender pelo maior, e dessa forma ele explora impiedosamente os clientes desesperados que entram na sua loja.

Parece o mercado, certo?

(e vocês aí, pagando MBA — basta ver o filme)

Mas tem um detalhe.

Por um problema de encanamento, a loja dele fede a esgoto, no que ele sempre precisa explicar aos seus clientes que aquele cheiro de merda não é dele.

O cheiro vem do encanamento fétido, ele explica.

A merda está no encanamento.

….

E não é parecido com o que temos hoje? Não tem o mesmo cheirinho?

Nós somos o encanamento. O cheiro é nosso.

É tempo de limpeza, mas não dá pra parar no álcool gel.

#somostodosencanamento.

Cuidem-se. De verdade. Uns aos outros. Na pessoa física e na jurídica.

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