A Revolucão pela Inclusão

A versão original desse post é de 30/03/2020. Crip Camp acaba de entrar para a lista dos longas pré-indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2021. Vale a revisita ao texto e à obra. Inclusão e diversidade são importantes, hoje e sempre.

Versão em áudio desse artigo, lida pelo próprio autor.

Voltaire disse: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”.

A frase é uma conclusão lógica sobre como seria impensável manter o equilíbrio social na ausência de uma de suas narrativas mais emblemáticas.

Teríamos coisas e mistérios inexplicáveis, teríamos dúvidas e angústias existenciais ainda mais pungentes.

Por isso, precisaríamos de Deus.

Aplico as palavras de Voltaire a Camp Jened e a Judith Heumann.

Se não existissem, precisaríamos inventá-los, pois uma parte significativa da história da acessibilidade ficaria sem explicação.

Estamos em Nova Iorque no início dos anos 70.

Tem uma guerra acontecendo no Vietnã, tem a corrida espacial e a guerra fria, temos Nixon como presidente e os Estados Unidos ainda se acomodam numa sociedade civil que recém incorporava a conquista da igualdade para todos, independente de cor, raça ou religião.

Camp Jened é um acampamento de férias, a 160 km de Manhattan, exclusivo para pessoas com deficiência e mantido, literalmente , por um grupo de hippies.

O lugar tem a atmosfera de Woodstock, o festival de música que celebrou paz, amor, sexo e música.

A energia é indescritível, com todos os tipos de deficiências convivendo harmoniosamente, livres, sem excessos de cuidados, sem pudores ou recatos e sem hierarquias de deficiências.

Havia desde casos tidos como “leves” pela sociedade, como pólio, até pessoas com paralisia cerebral severa.

Em Camp Jened, vemos a vida como ela é, com todas as purezas e impurezas, sem espaço para patrulhamento, autopiedade ou discurso moralizador.

Era o espaço dos sonhos para as PCDs, uma ilha utópica de inclusão, uma exceção dentro de uma sociedade ainda alienada para as questões de mobilidade.

É esse o fio narrativo de uma das histórias mais interessantes e importantes que você pode assistir na sua quarentena.

“Crip Camp” é um documentário produzido pelo casal Obama, disponível na Netflix, e que resgata o caso mais emblemático da luta por condições dignas de acessibilidade no Estados Unidos.

É um documentário sobre a alma humana e seu dualismo.

Acompanhamos ao longo de 90 minutos um grupo de jovens que aprenderam uns com os outros a desenvolver suas estimas e poderes sociais.

O acampamento é um escudo.

Os campistas sentem-se, pela primeira vez na vida, independentes.

Abordam assuntos polêmicos e delicados com assertividade e humor.

São jovens, com piadas de jovens, fazendo coisas de jovens.

Brincadeiras idiotas, desejo sexual incontrolável, a descoberta da música, humor negro e comentários politicamente incorretos.

Tem de tudo, tem excesso, tem angústia, tem amor e tem dor.

Questionam a repressão familiar, disfarçada de cuidados excessivos, e que sufocam seus direitos à privacidade.

Começam a ficar sensíveis às causas de acessibilidade e mobilidade e se engajam politicamente.

Ponderam sobre o quanto evoluíram quando aprenderam a escutar todos os pontos de vistas, não deixando ninguém para trás.

E, por fim, refletem sobre o enquadramento social das questões de inclusão, sugerindo que os não deficientes, os “normais”, deveriam pensar em se adaptar, se aproximar e não apenas criar ambientes superficiais de convívio coletivo.

É um soco no estômago atrás do outro, pincelados por passagens anedóticas e bem humoradas, como a de uma das personagens que tem paralisia cerebral.

Temendo envelhecer sem perder a virgindade, teve um caso com o motorista do ônibus escolar e, tempos depois, começou a reclamar de dores na região pubiana.

Uma vez no médico, dado a sua condição, resistiam em dar um diagnóstico que pudesse ter a ver com relações sexuais, como se ela não fosse desejável “de ser comida”, nas palavras da própria.

Quando disseram que ela estava com gonorreia, ela sorriu e comemorou, orgulhosa de suas peripécias sexuais.

Essa mesma personagem, disposta a combater os preconceitos, dedicou-se aos estudos, e veio a se tornar doutora em sexualidade humana.

Tocante.

Outro caso, contado em tom de piada, é de um personagem que tem pólio, que, quando manifestou sua vontade de casar, foi aconselhado pela família a procurar por uma deficiente menos deficiente, talvez uma que também tivesse pólio, como ele.

O filme vai misturando essas histórias de forma engenhosa, num crescente narrativo, até culminar em seu ponto central.

Nixon havia aprovado uma lei federal de reabilitação vocacional.

A seção 504 dessa lei regulava sobre a garantia de acessibilidade nos espaços mantidos ou subsidiados com dinheiro publico, como escolas, hospitais, universidades, bibliotecas, transporte, etc.

Ou seja, se tem dinheiro público, tem que ser acessível.

Acontece que a lei era solenemente ignorada e nada era feito no sentido de assegurar esses direitos mínimos.

As justificativas do poder público, vistas com distanciamento histórico, são estapafúrdias, insensíveis e cruéis.

As questões eram todas debatidas pelo mérito financeiro e pela insignificância estatística do grupo que a pleiteava.

Pessoas que de tanto se esconderem, de tanto viverem às margens sociais, passaram a sequer serem notadas.

Essa alienação política e social é chocante, sobretudo por acontecer em cidades mais liberais e progressistas como Nova Iorque e São Francisco.

Nesse cenário, surge a figura de Judy Heumann, uma das campistas, que se destaca como líder do movimento, mobilizando simpatizantes e pressionando políticos a cumprirem o disposto em lei.

O movimento nasce pequeno, mas se espalha organizadamente pelos Estados Unidos, até o momento emblemático, onde um grupo de pessoas com deficiência invade a sede do Ministério da Educação, Saúde e Bem-Estar em São Francisco, dando início a fase de maior ebulição da luta.

A sociedade civil e a imprensa, até então alienadas, tomam interesse pelo tema e acompanham dia após dia o cotidiano dos invasores, alguns, inclusive em greve de fome.

Os Panteras Negras, de forma inesperada, se aliam ao movimento, oferecendo comida e produtos de limpeza.

É um novo movimento pelos direitos civis, desta vez daqueles que compõem a maior minoria dos Estados Unidos.

O final é emocionante e impactante, ao mesmo tempo que nos revolta ao perceber, como brasileiros, como ainda somos primitivos nesse tema.

Precisamos de Judy Heummans.

Precisamos em todos os lugares.

Precisamos agora.

Desliguem o noticiário mórbido por um instante, permitam-se driblar o algoritmo da Netflix, deem um tempo nas suas maratonas particulares e assistam “Crip Camp” hoje.

É obrigatório para qualquer cidadão.

Deixe uma resposta