Don’t F**k With Cats

Um artigo recente do New York Times especula sobre o futuro das agências americanas de inteligência, uma vez que as grandes empresas de tecnologia detêm muito mais informações privilegiadas sobre o comportamento das pessoas e numa escala inimaginável.

O surgimento de uma avalanche de aplicativos e dispositivos que usam de recursos biométricos, reconhecimento facial ou de voz nos faz imaginar que CIA, NSA, FBI tenham de repensar protocolos de vigilância e estabelecer contatos com essas grandes empresas para definir os limites onde um dado deixa de ser comercial e exclusivo das relações “cliente/empresa” e passa a ser passível de operações de vigilância.

Acrescente nesse cenário a ascensão de empresas asiáticas, como a Huawei, e temos uma enorme confusão entre política, diplomacia, privacidade individual e um mundo repleto de serviços e produtos digitais.

Essa é uma das faces da transformação digital, e uma das mais relevantes, que é a mudança das dinâmicas sociais e econômicas ao ponto de exigir modificações políticas e diplomáticas, que por sua vez vão impactar a forma de fazer e criar negócios, que por sua vez vão exigir novas mudanças de comportamento.

Ou seja, é um ciclo eterno de adaptações, ora vindas de cima, por regulações e leis, ora vindas por baixo, pela pressão exercida por novos costumes.

Mas, vamos dar uma pausa e um salto.

A pausa é nessa engenharia política descrita acima e o salto é para impactos mais mundanos, na vida de pessoas comuns.

Pausamos e saltamos, mas continuamos nos impactos marginais da chamada transformação digital.

Vamos falar do documentário sensação da Netflix no momento — Dont Fuck With Cats”.

Pedimos que abstraiam algumas coisas, sobretudo o fato da história envolver maus tratos com animais, assunto que pode nos levar para outros rumos de discussão, que não são de interesse desse artigo.

Esse documentário repassa os subterrâneos mentais de um “serial killer” que navegou sorrateiramente pela vastidão da internet, sem chamar atenção da polícia.

O deslize dele foi desconsiderar a fúria dos ativistas pelos direitos animais.

Para ficar no mundo animal, o documentário é todo esquematizado numa caçada de gato e rato, que tem início com um prosaico vídeo onde dois gatinhos são asfixiados até a morte.

Esse seria apenas mais uma bizarrice da internet, não fosse pela indignação de algumas poucas pessoas, desconhecidas umas das outras, mas conectadas pelo Facebook, que começaram uma cruzada incessante na tentativa de descobrir o autor da atrocidade.

O que se vê desse ponto em diante, e com o cuidado de evitar ‘spoilers‘, é uma obra prima sobre os novos tempos digitais, desde que você consiga concentrar sua atenção nesse aspecto da história.

São pessoas comuns, de conhecimento mediano, empregos simples e mundanos, usando Facebook e Google, mas empregando técnicas de busca e rastreamento extremamente sofisticadas.

Tudo que elas tinham era uma motivação quase paranóica em localizar o assassino, que por sua vez, ao entender que estava sendo vigiado, também contra atacou com as mesmas ferramentas, usando de sua enorme vaidade para demonstrar sadismo e controle sobre os atos brutais que cometia.

Ambição e paranóia versus vaidade e manipulação.

Um embate entre sentimentos que prevalecem em todos os relacionamentos humanos, em medidas mais saudáveis na maior parte do tempo, e que determinam a forma de construção de produtos e serviços.

Afinal, é sobre sentimentos e relações.

Ao se permitir ver o documentário do ponto de vista da revolução digital, fica mais nítido a fronteira entre dois mundos que passam a se confundir e formar uma nova dinâmica.

Um mundo onde as ferramentas digitais e o emprego de raciocínio lógico, turbinado de sentimentos, criam uma teia de realidade e de fantasia.

O que é verdade? O que é uma pista? O que é um sinal ou que é um ruído? O que é manipulação digital? Quais os limites da privacidade?

O documentário repassa todos esses assuntos, tendo como pano de fundo uma história intrincada e quase surreal.

Sim, é entretenimento, mas também é sobre compreender a arquitetura desse mundo híbrido que vivemos.

Um mundo digital, lógico, mas ainda assim, governado pelos instintos primitivos.

O que é transformação digital pra você?


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