A ética. De máscaras!

É ético fazer especulação financeira com a pandemia do coronavírus?

Uma pergunta assim, no calor do momento, no âmago do problema, juntando ética e pandemia na mesma frase, soa um tanto polêmica.

Uma resposta plausível, provavelmente a da maioria das pessoas, é o não Não é ético especular em casos sensíveis envolvendo saúde e vida.

Mas vamos mudar a pergunta.

Imaginemos que, através de um poder extraordinário, a capacidade de emitir um decreto de lei, por exemplo, você pudesse controlar a clássica dinâmica econômica de oferta e demanda, influindo na formação de preços.

Sim, vamos imaginar que, não importa o quanto a demanda por um bem subir, o preço desse mesmo bem permanecerá inalterado, podendo até cair.

Afinal, você pode, você tem o poder de controlar o mercado.

Apenas para deixar claro, esse é um cenário sem qualquer mudança nas características produtivas ou nos elementos de custo do produto. Tudo permanece como era.

Então, nesse caso, hipoteticamente falando, você, sendo um órgão regulador, controlaria o preço do álcool gel? Controlaria?

Ok. Posso imaginar sua resposta.

Mas vamos seguir.

Imagine que você ainda possui esse mesmo poder, mas que você é o produtor de álcool gel.

Sim, você faz isso pra viver, você vende produtos, você empreende, você analisa o mercado, você enxerga oportunidades, você faz cursos de ágil, ‘toma’ coach, você segue os mandamentos das mentes milionárias.

É “no pain, no gain”, certo?

E, então, o que você faria?

Aplicaria o decreto de controle de preços? Aplicaria?

Complexo, não?

O que define ética, especulação, visão de negócios e senso humanitário?

São definições universais e atemporais? Uma depende da outra? Uma contagia a outra?

O juízo de valor sobre cada uma dessas coisas tem a ver com a proximidade histórica, com o fato de estarmos, literalmente, vivendo o evento em questão?

Sendo assim, assumindo que a proximidade com o evento pode criar uma emoção diferente, é possível que daqui a 20 anos, com o devido distanciamento histórico, analisemos essas perguntas com outros olhares?

Por fim, onde passamos a linha que separa os gênios dos cínicos e dos hipócritas?

Ah, muitas perguntas, muitas perguntas, e tenho minhas opiniões sobre, mas esse não é o lugar e nem o momento.

Hoje o dia é de reflexão. Dia de curadoria de conteúdo.

Vamos com uma dica especial.

Esse artigo do New York Times conta a história de empreendedores americanos (gente como a gente) que, antevendo a pandemia e seus efeitos, saíram país afora comprando todo o estoque de álcool gel, máscaras e tudo mais que pode ser útil no processo de prevenção sanitária e higiênica.

Eles, literalmente, acabaram com os estoques de lojas inteiras de pequenas cidades, criaram estoques gigantescos e começaram a vender seus produtos na Amazon.

Tipo, comprei por 2 e estou vendendo por 20.

É a equação matadora. O negócio do século.

Afinal, as pessoas estão desesperadas, o dinheiro vai correr fácil, o lucro será extraordinário.

Tudo ia maravilhosamente bem, um negócio estava sendo desvendado, mais pessoas foram tendo a mesma ‘sacadinha’, quando, de repente, ….BUM, POW!

A Amazon, dona do rolê todo, acabou com a farra, baniu esses vendedores do seu site e sinalizou que quem operasse no modo ganancioso seria igualmente punido.

Tipo assim mesmo. Acabou a zona!

Na Amazon, os princípios, nesse caso (e é bom enfatizar isso), estão acima dos negócios. A Amazon, como sabemos, não é essa santidade toda, mas isso fica pra outro dia.

O tal do “business model” dos empreendedores de ocasião tem outros desdobramentos.

O movimento desses pequenos vendedores foi tão espetacular, do ponto de vista de estratégia logística, que eles realmente criaram um desequilíbrio no mercado, concentrando boa parte do estoque disponível desses produtos de assepsia.

Em outras palavras, eles estão sentados sobre um estoque gigantesco, sem alternativas de venda, sem capacidade de resolver o problema no curto prazo, e, consequentemente, provocando uma crise de abastecimento no mercado.

A história tem outros detalhes pitorescos, mas a parte final é digna de uma aula de MBA, digna de um exercício lógico e retórico perfeito (quando visto pela ótica da picardia, sem outros juízos).

Quando perguntado sobre o que achava da retaliação da Amazon, um dos vendedores deu uma resposta lapidar.

Disse que, basicamente, estava ajustando uma deficiência logística do mercado.

Segundo ele, esse processo de comprar todo o estoque de pequenas lojistas, em cidades remotas, e revender na Amazon, melhoraria a distribuição para outras áreas e cidades que poderiam estar desassistidas nesse momento de crise.

Pois, então.

Leia o artigo, releia as indagações provocativas desse texto, reveja essa última frase e reflita novamente sobre a pergunta que abre esse texto.

É ético fazer especulação financeira com a pandemia do coronavírus?

Pra mim, não, não é!

A questão é que existem especulações que você vê.

E existem especulações que você não vê.

A invisível é mais virulenta, mais antiética, mais covarde, mais mortífera e tem efeitos mais prolongados.

Boa leitura.

Boa cura de conteúdo.

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